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Um rio, uma pele, uma história, uma dor - Mergulhos em travessias onde nada nem ninguém atravessa igual

Por Gabi CoutinhoNos últimos tempos ouvi inúmeras vezes aquela citação que diz que “um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio”. E realmente… o rio não é o mesmo, o homem não é o mesmo, o caminho percorrido até ali é diferente e por aí vai. Mas o mais maluco diante disso é q

Por No Teatro Curitiba14 de julho de 2026 5 min

Atualizado em 27 de agosto de 2026

Um rio, uma pele, uma história, uma dor - Mergulhos em travessias onde nada nem ninguém atravessa igual

Por Gabi Coutinho

Nos últimos tempos ouvi inúmeras vezes aquela citação que diz que “um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio”. E realmente… o rio não é o mesmo, o homem não é o mesmo, o caminho percorrido até ali é diferente e por aí vai. Mas o mais maluco diante disso é que, mesmo com essa consciência, a gente ainda é ingênuo o suficiente para achar que já conhece uma história. Que sabe exatamente o que está por vir.

Eu já tinha lido o livro O Avesso da Pele. Sabia do que se tratava, conhecia a força da narrativa e carregava uma curiosidade antiga sobre como aquela história encontraria um corpo, uma voz e um palco. Somado a isso, tinha uma expectativa muito particular de reencontrar o elenco que me hipnotizou em A Máquina, pela sintonia rara de quem parece dividir um pensamento comum antes mesmo que ele aconteça.

Diante desse contexto, entrei no teatro acreditando que encontraria uma experiência densa, pesada, quase sufocante. Me preparei para isso. E fui lindamente surpreendida por um espetáculo que talvez seja tudo isso, mas escolhe um caminho muito mais inteligente do que simplesmente fazer o peso cair sobre os ombros de quem assiste. A peça nos conduz.

Foto: Helt Rodrigues

Foto: Helt Rodrigues

É curioso perceber como algumas histórias entendem que, para que a plateia permaneça junto até o fim, é preciso respirar. O riso aparece, a interação nos chama para perto e, quando percebemos, já não estamos apenas observando uma narrativa acontecer. Estamos envolvidos por ela. Não porque ela alivie a realidade que conta, mas porque entende que a vida nunca acontece em um único tom.

Mesmo diante da violência, as pessoas continuam fazendo piadas, amando, lembrando, errando e tentando seguir em frente. Talvez seja justamente isso que torne tudo mais doloroso.

Confesso que havia também um receio silencioso. Sempre me pergunto como me posicionar diante de histórias atravessadas por dores que não são minhas. Existe uma diferença importante entre empatia e apropriação, e algumas experiências simplesmente não podem ser imaginadas a ponto de serem compreendidas por inteiro. O racismo é uma delas. Há marcas que pertencem a quem as vive, e seria desonesto fingir o contrário.

Mas talvez o teatro nunca tenha pedido isso.

Talvez ele não espere que alguém saia de uma sessão acreditando saber exatamente o que é viver na pele do outro. O que ele pede é algo muito mais profundo: presença. Escuta. A disposição de permanecer diante de uma realidade que tantas vezes a sociedade prefere transformar em estatística, manchete ou silêncio.

É bonito perceber que essa aproximação acontece sem didatismo. Aos poucos, a história vai sendo montada da mesma forma como a memória organiza um luto: nunca de maneira linear, mas por fragmentos, associações, lembranças que parecem surgir sem ordem e, ainda assim, desenham um caminho perfeitamente compreensível.

Nunca tive a sensação de estar perdida. Pelo contrário. Quanto mais a narrativa aceitava seus próprios fragmentos, mais ela parecia reproduzir a maneira como tentamos reconstruir alguém que já não pode mais contar a própria história.

Talvez seja por isso que a primeira imagem permaneça comigo até agora: a de pessoas surgindo de um amontoado de livros e papéis. Naquele instante, parecia apenas uma escolha de encenação já muito impactante. Só que, pouco a pouco, ela fez ainda mais sentido, ao entender que algumas pessoas continuam existindo exatamente assim: nas páginas que escreveram, nas palavras que ensinaram, nos vestígios que deixaram espalhados pelo mundo e no esforço de quem insiste em reuni-los outra vez. Eu me pergunto, ainda: numa posição como aquela, envolvido por tanta coisa, como é que ainda é possível respirar? Metafórico. Porém ao mesmo tempo bastante literal. Haja fôlego.

Foto: Helt Rodrigues

Foto: Helt Rodrigues

Próximo ao fim, sinto as lágrimas transbordarem. Lágrimas que não nascem apenas da ausência mas da consciência de que algumas ausências nunca deveriam ter existido, pelo menos não da forma como aconteceram. Conscientizamo-nos de que ouvir essas histórias não nos permite sentir uma dor que não é nossa, mas nos torna um pouco menos capazes de naturalizá-la, de ignorar que ela continua existindo.

Aprendemos que as lágrimas também nunca significam a mesma coisa, porque nascem de avessos diferentes. Há dores que paralisam, há dores que despertam, há dores que encontram na dança uma forma de continuar respirando. Talvez seja por isso que a peça termine no funk. Como uma recusa a entregar à violência a última palavra.

O último gesto é de quem se levanta, ocupa o espaço, dança, resiste e segue. E, como no banho de rio que nunca é o mesmo, cada pessoa atravessa esse instante de um jeito único, levando consigo algo que só poderia nascer do lado de dentro.

SINOPSE

Adaptado pelo Coletivo Ocutáe com direção de Beatriz Barros, a história é contada por Pedro, que tem na morte do seu pai, Henrique, o ponto de partida para uma investigação do passado. Ele era um professor de escola pública que foi assassinado voltando para casa depois da aula em uma desastrosa abordagem policial. O que está em jogo é a vida de um ser humano abalado psicologicamente pelas inevitáveis fraturas existenciais da sua condição de um homem negro em um país racista.

FICHATÉCNICA

Atores: Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli, Vitor Britto e Victor Salomão

Direção Geral: Beatriz Barros

Dramaturgia: Beatriz Barros e Vitor Britto

Assistente de direção: Vitor Britto

Direção de movimento e preparação corporal: Castilho

Direção Musical: Felipe Oládélè

Concepção e Criação do Desenho de Luz: Gabriele Souza

Figurino: Naya Violeta

Cenografia: Wanderley Wagner

Desenho e criação de Luz: Gabriele Souza

Cenotécnico: Luis Felipe Machado

Assistente de Cenotécnica: Trika Carvalho

Operação de Luz: Gabriele Souza

Operação de som: Dj Akinn e Quiriku

Direção de produção: Jennifer Souza

Produção: Corpo Rastreado | Gabs Ambròzia e Jack dos Santos

Fotografia: Helbert Rodrigues

Filmagem: Matheus Brant e Gabriela Miranda

Classificação: 14 anos

SERVIÇO

“O Avesso da Pele” em Curitiba

Data: 4 e 5 de julho

Horário: Sábado - 20h | Domingo - 19h

Local: Guairinha (R. XV de Novembro, 971 - Centro)

Ingressos: a partir de R$60 (meia-entrada) + taxa adm pelo Disk Ingressos

Redes sociais: @oavessodapele e @polarize.br.

Produção local: Polarize Entretenimento

Fonte original

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