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Butō ocupa Curitiba com dança, performance e corpos em transformação
Mostra independente reúne diferentes pulsações do butō em dois territórios da cidade, com performances, cine-butō, oficinas e conversas, de 18 a 22 de setembro
Atualizado em 22 de setembro de 2026
E se o corpo não precisasse estar sempre funcionando? E se o cansaço, a fragilidade, a deformação e até a morte também pudessem ser matéria de criação?
É a partir dessas perguntas que Liturgia dos Escombros – Mostra de butō contemporâneo chega a Curitiba entre os dias 18 e 22 de setembro. Fruto de uma iniciativa independente dos próprios artistas e produtores envolvidos, a mostra ocupa o Espaço KÀ de Artes e a Casa Hoffmann com performances, cine-butō, oficinas, registros históricos e conversas.
Idealizada pelo butōista Lucca Lírio e pelos dançarinos de butō Beatriz Marçal e Caio Frankiu, com direção e curadoria de Lucca, a mostra aproxima diferentes linhagens do butō de questões que atravessam o presente, como exaustão, ancestralidade, desejo, precariedade, memória, morte e transformação.
Um corpo que não precisa ser perfeito
Nascido no Japão do pós-guerra, o butō rompeu com padrões tradicionais de beleza, virtuosismo e representação. A linguagem, associada às pesquisas de artistas como Tatsumi Hijikata, Kazuo Ohno e Yoshito Ohno, coloca o corpo no centro de uma investigação que não busca necessariamente a forma perfeita, mas aquilo que o corpo carrega, atravessa e pode transformar.
“O butō não começa perguntando como um corpo deve parecer. Ele pergunta o que esse corpo carrega, o que o atravessa e o que ainda pode nascer dele. Olhar para a fragilidade pode ser um gesto radical”, afirma Lucca Lírio.
É a partir dessa perspectiva que Liturgia dos Escombros reúne trabalhos de diferentes artistas e pesquisas, colocando em diálogo corpo, memória, ancestralidade, morte e criação.
Entre o cabaré e o ritual
A programação foi organizada em dois espaços da cidade, cada um criando uma experiência distinta para o público.
No Espaço KÀ de Artes, nos dias 18 e 19 de setembro, acontece o SOMOS KÀ-baret, programação paga que recupera uma dimensão experimental, noturna, erótica e marginal ligada às primeiras experiências do butō.
Em diálogo com o Ankoku-Butō, a chamada “dança das trevas” de Tatsumi Hijikata, a programação reúne performances ao vivo, cine-butō, vídeos de dança, registros históricos e festejos.
“O Espaço KÀ permite uma relação mais carnal, excessiva e indisciplinada com o butō. É um espaço em que a performance pode acontecer junto com o cinema, a música, o encontro e a presença do público”, explica Beatriz Marçal.
Já a Casa Hoffmann, entre os dias 20 e 22 de setembro, recebe a programação principal da mostra, com apresentações gratuitas e uma atmosfera mais ritualística, meditativa e fantasmagórica.
A proposta se aproxima das poéticas de Kazuo Ohno e da transmissão de Yoshito Ohno, explorando uma dimensão mais onírica da linguagem.
“Nesse segundo polo da nossa mostra, decidimos honrar a linhagem mais onírica e surreal que chega até nós de Kazuo e Yoshito Ohno, onde se dança com os Ancestrais, dança-se com quem já não está mais aqui nesse plano, encontrando-se no limiar de vida. A morte aqui existe como um último suspiro, um alívio do retorno ao éter primordial”, afirma Lucca.
Quando o corpo vira memória, criatura e paisagem
Nas performances, os corpos deixam de ser apenas instrumentos para se tornar matéria, arquivo, paisagem, criatura, fantasma e raiz.
A programação reúne trabalhos de diferentes artistas e perspectivas. Entre eles estão Bloodline Ritual: O que os Ancestrais deixam no corpo, de Lucca Lírio; A Morte que Nela Habita, de Beatriz Marçal; Cyber, de Alessandra Giacomoni; Kanashibari Hypnagógico, de Bruno Sanctus; Pollen-Pólem(os), de Caio Frankiu; Anemia, de Dani Durães; e Butōsei no YoaKe (Alvorecer Butônico): Uma raiz que atravessa o futuro, criação coletiva dos cinco artistas.
“O corpo é também espaço. Quando ele ocupa, desloca ou transforma um lugar, cria outra relação com a cena e com quem está assistindo. É esse cruzamento entre corpo, espaço e dramaturgia que atravessa o meu trabalho”, afirma Caio Frankiu.
O butō também acontece fora do palco
Além das performances, Liturgia dos Escombros também abre espaço para formação, pesquisa e troca.
Na Casa Hoffmann, a programação conta com as oficinas Karada – O Corpo Vazio e MA – O Espaço-Entre, além da Roda de Conversa Butō: Origem e História e atividades relacionadas à partitura imagética e corporal do butō.
Antes mesmo da abertura oficial da mostra, no dia 13 de setembro, a Casa Hoffmann recebe, dentro da programação Portas Abertas, a oficina Butô: Inclusão Radical.
Gratuita e aberta a diferentes corpos, idades e habilidades, a atividade não exige experiência anterior em dança.
A proposta parte de uma provocação: e se a fragilidade também fosse beleza?
“Existe uma ideia de que determinados corpos precisam ser consertados antes de ocupar uma cena. A gente quer fazer o contrário: começar pelo corpo que existe, com suas marcas, seus limites, sua história e suas possibilidades. O butō começa aí”, afirma Lucca.
Uma pesquisa que aproxima arte e vida
A investigação do butō também ultrapassa o palco e chega ao campo acadêmico.
Lucca Damilano e Nabylla Fiori de Lima tiveram aprovada no 1º Congresso de Dança da UNESPAR a pesquisa Butō como prática de cultivo: investigando a fronteira entre vida e cena, que será apresentada durante o Seminário de Pesquisa Acadêmica, realizado de 14 a 18 de setembro, em Curitiba.
O estudo investiga o momento em que o viver cotidiano pode se transformar em dança, compreendendo o butō como uma prática de cultivo e borrando as fronteiras entre arte e vida.
Entre o cabaré e o ritual, o grotesco e o sublime, a sombra e a flor, Liturgia dos Escombros aproxima diferentes linhagens, corpos e modos de criação.
Para Lucca, trata-se de pensar em “um corpo que não precisa ser perfeito para estar em cena. Um corpo que pode parar, desaparecer, se transformar, e continuar”.
SERVIÇO Liturgia dos Escombros – Mostra de butō contemporâneo
Data: 18 a 22 de setembro de 2026 Classificação: 14 anos
PORTAS ABERTAS
13 de setembro | domingo 9h às 13h Casa Hoffmann – Rua Dr. Claudino dos Santos, 58 – São Francisco
Oficina: Butô: Inclusão Radical Atividade gratuita, aberta a diferentes corpos, idades e habilidades. Não é necessário ter experiência anterior em dança. Inscrições na hora.
SOMOS KÀ-BARET
18 e 19 de setembro | 19h às 22h Espaço KÀ de Artes – Rua Treze de Maio, 506 – Centro
Performances, cine-butō, vídeos e registros históricos.
Ingressos: via Sympla.
LITURGIA DOS ESCOMBROS
20, 21 e 22 de setembro Casa Hoffmann – Rua Dr. Claudino dos Santos, 58 – São Francisco
Manhã: oficinas e atividades formativas Tarde: ensaios técnicos 19h às 22h: performances
As apresentações são gratuitas, com retirada de ingressos com uma hora de antecedência.
20 de setembro 9h30 às 13h30 – Oficina Butō: Karada – O Corpo Vazio Valor: R$ 75 (inteira)
21 de setembro 9h30 às 13h30 – Oficina Butō: MA – O Espaço-Entre Valor: R$ 75 (inteira)
22 de setembro 10h às 12h – Roda de Conversa Butō: Origem e História Atividade gratuita.
As oficinas são realizadas mediante inscrição.
Instagram: @pocoependulo | @espacokadeartes
Programação de performances
20 de setembro: Bloodline Ritual: O que os Ancestrais deixam no corpo, de Lucca Lírio; A Morte que Nela Habita, de Beatriz Marçal; e Butōsei no YoaKe (Alvorecer Butônico): Uma raiz que atravessa o futuro, criação coletiva.
21 de setembro: Cyber, de Alessandra Giacomoni; Kanashibari Hypnagógico, de Bruno Sanctus; e Butōsei no YoaKe.
22 de setembro: Pollen-Pólem(os), de Caio Frankiu; Anemia, de Dani Durães; e Butōsei no YoaKe.
As apresentações na Casa Hoffmann são gratuitas.
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