Críticas e Colunas
Bola na Trave: uma reflexão sobre Na Marca do Pênalti
Entrei no Teatro Guaíra com a sensação de dia de clássico. Não exatamente aquele frio na barriga de decisão, mas um burburinho diferente.Nas filas, dava pra reconhecer camisas de colecionador, comentários sussurrados, memórias compartilhadas antes mesmo do apito inicial. Era como
Atualizado em 27 de agosto de 2026

Entrei no Teatro Guaíra com a sensação de dia de clássico. Não exatamente aquele frio na barriga de decisão, mas um burburinho diferente.
Nas filas, dava pra reconhecer camisas de colecionador, comentários sussurrados, memórias compartilhadas antes mesmo do apito inicial. Era como se parte da torcida do Corinthians tivesse atravessado as catracas do estádio e decidido ocupar as poltronas vermelhas.
Sentei. Esperei o ritual. O apagar das luzes é sempre meu apito inicial para o teatro se tornar jogo.
Mas as luzes não apagaram.
Fiquei ali, meio fora de posição, como zagueira que levanta a mão pedindo impedimento e percebe que a bandeirinha não vai subir. O tempo corria, o espetáculo começava, e a plateia seguia iluminada. Aquilo me tirou do campo imaginário e me manteve na arquibancada: consciente demais, exposta demais, real demais.
O monólogo de Walter Casagrande entrou em jogo com passes longos de memória. Infância à fama, das dores à dependência, da queda ao retorno. Uma trajetória cheia de dribles difíceis e bolas divididas.
Era impossível não reconhecer a emoção ali, e admito que fiquei atenta ao lance. Algumas histórias vinham com força, como cruzamentos bem feitos que pedem cabeceio. Outras chegavam como passes curtos, reflexivos, quase conselhos. A plateia reagia como torcida que reconhece o ídolo: murmúrios, risos, identificação - e aplausos fora de hora.
Eu mesma recebi alguns desses passes. Tentei dominar, mas deixei a bola cair.
Foi uma conversa honesta, sim, mas sem a construção dramática e o preparo cênico que espero quando entro num teatro. Era como assistir a uma homenagem em campo de microfone aberto, ou ainda uma palestra motivacional - emocionante, mas ainda dentro da lógica do estádio.
Pensei que aquilo funcionaria muito bem em outras arenas. Num documentário, num evento de superação, num tributo no gramado. Agora ali, dentro da programação do Festival de Curitiba, ocupando pauta no Teatro mais “disputado”, senti que a bola não encaixava completamente no esquema tático.
Não dá pra negar: foi bonito ver o Teatro Guaíra ocupado por uma torcida diferente, com outras narrativas entrando em campo. Foi válido perceber que a arte e a cultura podem ampliar seus sistemas, testar formações, mudar a escalação.
E isso tem valor. Tudo isso fortalece o jogo.
Mas saí com a sensação de ter visto uma bola bem chutada, com força, com intenção, porém sem “gol Rita Lee*” fora do telão.
Não entrou. E no meu placar pessoal, Na Marca do Pênalti acabou assim: bola na trave.
_______*

Fotos: Sabrina - SM Arte Cultura
Bola na Trave é uma reflexão de Gabi Coutinho sobre a peça “Na Marca do Pênalti, assistida dia 03 de abril na Mostra Lúcia Camargo, no Teatro Guaíra, no 34° Festival de Curitiba.
*O "Gol Rita Lee" é uma referência histórica no futebol brasileiro, quando Casagrande batizou seu gol na final do Campeonato Paulista de 1982, pelo Corinthians, em homenagem à cantora. O lance foi uma dedicatória à "Rainha do Rock", torcedora corintiana, que assistia à vitória por 3x1 contra o São Paulo no estádio.
_______*
Sinopse
Casagrande entra em campo. A plateia é seu time. O palco é o gramado, as lembranças são passes, e cada reflexão é um chute ao gol. Entre dribles e bolas divididas de emoção, Casão revisita sua carreira e também encara os clássicos mais difíceis da vida: a dependência química, as derrotas e as vitórias fora das quatro linhas. O apito inicial é dado e Casão encara a história que construiu. O resultado? Uma partida humana, onde a vida é o campeonato mais desafiador de todos.
Ficha técnica
Com Walter Casagrande Junior; Direção e Idealização: Fernando Philbert; Dramaturgia: André Acioli, Fernando Philbert e Walter Casagrande Jr; Produção: SM Arte Cultura; Direção de Produção: Selene Marinho; Produção Executiva: Andre Roman - Teatro de Jardim; Iluminação: Wilmar Olos; Rede Social: Sergio Mastropasqua; Fotos: Ronaldo Gutierrez; Registro e Edição de Vídeo: Ícarus Filmes; Operação de Vídeo: Rodrigo Chueri; Coordenação de Comunicação e Marketing: Livia Franceschinelli; Assessoria Artística: Vanessa Andrade.
Leia também

Críticas e Colunas
A mistura de cores num pacote de balas de goma - por Gabi Coutinho
Esses dias fui numa distribuidora de doces e escolhi um pacotinho de balas de goma daqueles que parecem ter mais da vermelha, que quase unanimemente é a favorita. Uma admiração que não é de hoje, mas que cada vez mais surpreende, sabe?E não que eu não goste das outras cores mas,
No Teatro Curitiba26 de agosto de 2026 5 min de leitura

Críticas e Colunas
Como foi que eu vim parar aqui? - uma reflexão de muitas perspectivas sobre o processo de Lucrécia, da Trupe Ave Lola
Por Gabi CoutinhoComo foi que eu vim parar aqui?Me pergunto mas não busco uma resposta pois tenho medo que visto de fora pareçadelirante demais. Um devaneio que ao invés de trazer explicações plausíveis para o lugaronde me encontro soa como loucura quando visto de fora.Ouço uma m
No Teatro Curitiba22 de agosto de 2026 3 min de leitura

Críticas e Colunas
Por trás de narizes vermelhos - por Gabi Coutinho
Durante muito tempo, palhaços foram criaturas que eu preferia manter distância. Não sei se por medo deles, ou por medo do que eles pareciam esconder. Havia algo desconcertante naquele sorriso pintado. Uma maquiagem que apagava o rosto de alguém para inventar outro. Eu olhava e pe
No Teatro Curitiba04 de agosto de 2026 4 min de leitura