Críticas e Colunas
Por trás de narizes vermelhos - por Gabi Coutinho
Durante muito tempo, palhaços foram criaturas que eu preferia manter distância. Não sei se por medo deles, ou por medo do que eles pareciam esconder. Havia algo desconcertante naquele sorriso pintado. Uma maquiagem que apagava o rosto de alguém para inventar outro. Eu olhava e pe
Atualizado em 27 de agosto de 2026

Durante muito tempo, palhaços foram criaturas que eu preferia manter distância. Não sei se por medo deles, ou por medo do que eles pareciam esconder. Havia algo desconcertante naquele sorriso pintado. Uma maquiagem que apagava o rosto de alguém para inventar outro. Eu olhava e pensava: por que alguém escolheria viver atrás de uma máscara?
Não acho que eu tenha me curado disso por completo, mas é fato que hoje eu vejo a palhaçaria de uma perspectiva muito mais bonita e, em muitas instâncias, transformadora.
Lembro pouco das minhas experiências de infância nesse quesito, para além da sensação estranha de desconforto. Jamais imaginaria que, anos depois, o teatro me levaria para tão perto desse universo. Mais do que isso: que uma temporada inteira de circo-teatro cheia de narizes vermelhos ocuparia um dos lugares mais bonitos da minha memória recente, tanto como artista e profissional quanto como espectadora.
Em meio às memórias que às vezes vinham, ao longo de três semanas, entre algo sinistro, uma competição de improviso e um fim que eu mesma não queria que acabasse, aconteceu algo raro.
Eu simplesmente esquecia - e isso era precioso.
Esquecia dos e-mails que precisavam ser respondidos, das preocupações acumuladas, das notícias que insistem em atravessar a porta de casa antes mesmo do café da manhã. Por pelo menos uma hora, uma ou duas vezes por semana, existia uma sintonia completa entre quem estava no palco e quem estava na plateia, que mesmo em silêncio acordava: o mundo podia esperar lá fora.
O mais curioso é que, de vez em quando, ele entrava de fininho. Não como peso, mas como piada. Bastava uma referência, uma frase aparentemente inocente, um comentário atravessado por uma daquelas verdades que só a comédia consegue dizer sem pedir licença. A plateia ria. Eu ria. E, de repente, aquilo que doía ganhava outra forma. Não desaparecia, mas ficava mais leve. Como se a realidade tivesse decidido experimentar outro figurino. Usar uma máscara que não dá medo se a gente souber olhar com carinho.
Olhar. Olhar que me lembra como me marcou olhar para os lados. Não lembro de ter visto por aí tantas pessoas diferentes rindo juntas por tanto tempo. Crianças gargalhando antes de entender completamente a piada. Adultos rindo de si mesmos. Gente mais velha com aquele riso que parece memória. Casais, amigos, famílias inteiras. Uma plateia que, por alguns instantes, deixava de ser um conjunto de desconhecidos para respirar no mesmo ritmo.
Levei minha mãe. Levei minha sobrinha de dez anos. Nenhuma das duas costuma frequentar teatro. Acho que, por mais que eu finja o contrário, não posso defini-las como pessoas que sequer gostam de estar na plateia. E vi a experiência fazendo elas felizes, comentando cenas no caminho de casa, rindo mais e mais vezes das mesmas piadas. Perguntando quando poderiam voltar.
Não sei se existe crítica melhor que essa. Não sei se tem algo mais precioso que esse relato. Especialmente como alguém que trabalha diariamente falando em formação de público, que não mede esforços pra que o teatro seja o lugar onde as pessoas se sintam tão tocadas a ponto de genuinamente querer retornar.
É mais simples do que parece. Porém extremamente complexo de se entender, por mais que Palhax Gourmet disfarce essa complexidade muito bem.
Curitiba precisa de mais encontros assim.
Mais artistas que nos lembrem que o riso nunca foi distração mas sim, uma forma de resistência; espaços que façam da graça uma coisa séria. Pontos que me foram ensinados, ou reforçados, justamente, por aqueles de quem um dia eu tive medo.
Quem diria que através do nariz vermelho eu teria um dos respiros mais bonitos que a arte já me deu.
______*

O Coletivo Palhax Gourmet celebrou seus 11 anos com uma temporada gratuita no Auditório Antonio Carlos Kraide, no Portão Cultural, reunindo três espetáculos que marcaram sua trajetória: A Pequena Loja Mística da Madame Sinistro, Palhax Gourmet e Fim dos Tempos. Além da divulgação e cobertura nas redes sociais, a comunicação aproximou novos públicos do universo da palhaçaria e do circo-teatro.
Gabi Coutinho assinou as mídias sociais da temporada e, ao longo de três semanas, tornou-se também plateia cativa dos espetáculos. Justamente ela, que por muitos anos teve medo de palhaços, hoje se declara uma das maiores admiradoras do trabalho do coletivo.
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