Críticas e Colunas
Como foi que eu vim parar aqui? - uma reflexão de muitas perspectivas sobre o processo de Lucrécia, da Trupe Ave Lola
Por Gabi CoutinhoComo foi que eu vim parar aqui?Me pergunto mas não busco uma resposta pois tenho medo que visto de fora pareçadelirante demais. Um devaneio que ao invés de trazer explicações plausíveis para o lugaronde me encontro soa como loucura quando visto de fora.Ouço uma m
Atualizado em 27 de agosto de 2026

Por Gabi Coutinho
Como foi que eu vim parar aqui?
Me pergunto mas não busco uma resposta pois tenho medo que visto de fora pareça
delirante demais. Um devaneio que ao invés de trazer explicações plausíveis para o lugar
onde me encontro soa como loucura quando visto de fora.

Ouço uma música que tenta conduzir a narrativa, mas ela parece mais bonita do que poderia ser.
Quando foi que isso se tornou uma questão?
Percebo o valor do ruído e volto a entender dentro de mim que somente internamente é possível assimilar os fragmentos do tempo. Há muita história dentro de cada um de nós.
O momento presente começou a ser construído num passado não tão distante mas o suficiente para que eu mesma esqueça de algumas coisas pelo caminho. Do mesmo modo que pensar que levarei tudo isso para o futuro me conforta mas amedronta diante da
possibilidade de que cada vez maisa memória seja também sonora a ponto da beleza incomodar.

Eu volto a tentar entender como vim parar aqui e chamar de sonho parece estranho porque é concreto o suficiente para se provar real. Sinto, escrevo, observo até me identificar com o que vejo. Não é como se eu visse humanidade onde antes havia matéria, mas me dou conta do quanto de matéria existe em tudo aquilo que chamo de humano.
Por mais que tenha dificuldade de interpretar, sinto que não preciso. Ao invés de tentar encontrar lógica direciono minha energia à entrega, aceitando que essa talvez seja a única forma de organizar aquilo que o mundo insiste em chamar de realidade.
Tudo me parece ter outra perspectiva, ao passo de que não me vejo mais como eu mesma.

Me reconheço num corpo que antes parecia de outra realidade e consigo me conectar a novas camadas que nem sequer sabia que existiam**. Já não é mais possivel olhar para um boneco sem encontrar o humano e, curiosamente, não falo do ator.**Falo daquele instante em que uma mão hesita antes de tocar e a respiração muda de ritmo para acompanhar outra que nem pulmões possui. Enquanto o ar, em mim, entra em fluxo aliviado.
A delicadeza existe em quem empresta presença sem tentar ocupar o centro e enquanto observo esse pacto silencioso, percebo que faço o mesmo.
Talvez seja isso que me comova.
Por um instante, já não importa como foi que vim parar aqui. Desde que eu esteja. Desde
que estejamos.
_______*
Gabi Coutinho pôde acompanhar um pouco do recente processo de montagem da Ave Lola
e se emocionou em cada etapa do processo: tanto com o que via em cena, quanto com o que acontecia dentro de si mesma.
Estar ali tão perto de uma das companhias que mais
admira, que ocupa pelo menos duas das posições dentre suas 5 peças favoritas, é uma sensação que realmente beira o sonho mas traz uma transformação paupável tanto pessoal quanto profissional. Algo difícil de explicar, que só a vivência tornou passível de compreensão.
Lucrécia estreia no domingo, 23 de agosto, na Ave Lola, com sessões de quinta a domingo. O ingresso é no formato Pague Quanto Vale.
A direção é de Ana Rosa Genari Tezza, com Helena Tezza e Wenry Bueno, e música ao vivo de Arthur Jaime e Breno Monte Serrat

Sinopse
Momentos antes de ser levada para um lar de idosos, Lucrécia decide se esconder. Ali, em um espaço íntimo e simbólico, ela mergulha em uma travessia de memórias, delírios, desejos e fragmentos da própria existência.
Serviço
23 de agosto a 06 de setembro
De quarta à domingo às 20h, sábados 16h e 20h e
domingos às 18h.
Ave Lola - Marechal Deodoro 1227
Classificação indicativa: 12 anos
Pague o quanto vale. Ingressos por ordem de chegada distribuídos 1h antes da sessão. Sujeito a lotação.
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