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Sobre quando a vida conversa consigo mesma ou um homem escuta a si mesmo em voz alta ou falo com alguém que usa o meu nome
Reflexões e expansões a partir do espetáculo A Língua do Fogo, de Vinícius Souzapor Soraya Martins PatrocínioUm professor, no momento em que está dando aula, sofre um mal súbito e esquece o próprio nome. A partir daí, começa uma travessia em que sonho, realidade, lembranças, sent
Atualizado em 27 de agosto de 2026

Reflexões e expansões a partir do espetáculo A Língua do Fogo, de Vinícius Souza
por Soraya Martins Patrocínio
Um professor, no momento em que está dando aula, sofre um mal súbito e esquece o próprio nome. A partir daí, começa uma travessia em que sonho, realidade, lembranças, sentido de pertencimento e identidade se misturam, num jogo cênico forjado a partir da língua/palavra em performance, emersa de uma dramaturgia labirínticas: literatura, autoficção, desejos e inquietudes. Essa é a trama de A Língua do Fogo, solo de Vinícius Souza apresentado na Caixa Cultural, em Curitiba, na Plataforma Súbita – Encontro Internacional de Investigações Cênicas: 2º Edição.
A dramaturgia labiríntica de Vinícius, também ator-performer da peça, se manifesta no uso do onírico e do tempo - passado, presente e futuro - como metáforas conceituais que questionam a ideia de verdade única e de identidade fixa. Adentrar na dramaturgia de A Língua do Fogo é aceitar o provisório dos sentidos, em que cada palavra narrada e/ou presentada no corpo do dramaturgo-performer se abre para outras, como rizomas, e para múltiplas interpretações.
Sem saber o próprio nome, o professor faz uma viagem no tempo das lembranças e dos esquecimentos e trava diálogos com o seu duplo, seu outro “eu”. É nesse ponto que o professor se desdobra em outros, versões de si mesmos ou de figuras que se refletem mutuamente. Esse jogo cria um efeito de estranheza e ironia, já que o “eu” deixa de ser uma entidade sólida e passa a ser uma construção narrativa. Aqui, o dramaturgo e o performer brincam com essa instabilidade de modo irônico, afiado e debochado, tratando as funduras da existência com aparente leveza. É nesse sentido que a ironia se faz figura de linguagem importante para entender a dimensão crítica do texto. O dramaturgo parece zombar da pretensão humana de controlar o sentido, de dominar o tempo ou de possuir uma identidade coerente. Uma ironia filosófica que desarma certezas e revela o caráter ficcional de muitas verdades que tomamos como absolutas.
Essa ironia se conecta diretamente à dimensão de duplicidade, eixo central na obra. O professor se duplica, assim como, “metateatralmente”, Vinícius Souza: o ator-performer performa as palavras que ele mesmo, como dramaturgo, escreveu. Esse eixo dá pista para entender a dimensão de criação da linguagem - tanto a falada quanto a performada – em A Língua do Fogo. Ela – linguagem-, aqui, não apenas comunica uma experiência, ela a produz. A existência do duplo do professor e a duplicidade de função de Vinícius na obra se sustentam porque são ditas, narradas, postas em palavras, num gesto duplamente performativo que cria mundos, subjetividades e camadas, dentro e fora de cena (ou dentro e mais dentro da cena). O professor, ao narrar os encontros consigo mesmo, não relata fatos e/ou situações simplesmente, mas performa sua própria fragmentação. Já Vinícius, ao dizer o texto que ele mesmo criou, narra e, também, presentifica, no corpo, seus desejos e seus modos de contar sua história.
A linguagem aparece, portanto, como performance da vida. Falar de si é inventar-se, ainda que essa invenção seja atravessada por lembranças, esquecimentos e contradições. O dramaturgo da peça sabe que a memória é falha e que toda autoficção é, em alguma medida, ficção. E o performer, entre o viver e o narrar, faz desses dois verbos gestos inseparáveis: existir é contar-se e contar-se é modificar aquilo que se é.
E a intertextualidade com o conto El Outro, de Jorge Luis Borges se faz. Literatura e teatro se fundem para manter a língua acessa do fogo. No conto, o escritor argentino narra o encontro impossível entre dois Borges, o jovem e o velho, não como artifício fantástico, mas como dispositivo filosófico e literário que põe em crise a noção moderna de sujeito uno, coerente e contínuo. O “eu” que fala no presente não coincide plenamente com o “eu” do passado, ainda que compartilhem o mesmo nome. A duplicidade, nesse sentido, não é exceção. É a regra da experiência humana. Somos sempre mais de um, atravessados por versões anteriores e futuras de nós mesmos, que coexistem em tensão.
Em El Outro, a linguagem também não se limita a relatar/narrar as memórias, antes,cria a experiência da memória. Ou seja, o passado não aparece como algo recuperado, mas como algo reconstruído no presente do discurso. O que o conto performa é a ideia de que toda lembrança é interpretação, toda identidade é ficção. É dessa forma que, tanto em El Outro, quanto em A Língua do Fogo, a linguagem dá forma, sentido e existência àquilo que chamamos de vida. No conto e na peça, ela não representa a experiência humana; produz uma experiência estética fragmentada, instável e atravessada pelo tempo que reflete a própria condição humana.
A peça sugere que a existência humana é inseparável de uma dimensão ficcional, não no sentido de mentira, mas de construção narrativa. Ser alguém é narrar-se continuamente, mesmo sabendo que essa narrativa nunca será definitiva. Nesse sentido, A Língua do Fogo propõe uma estética da existência em que viver é aceitar a multiplicidade do eu, a falha da memória, a impossibilidade de uma identidade plena. E a linguagem, longe de resolver esse impasse, o expõe.
A escrita labiríntica de Vinícius expressa, assim, uma visão do ser humano como alguém perdido entre narrativas, tempos e versões de si mesmo. Assistir A Língua do Fogo é percorrer um labirinto que, no fim, não leva a uma saída, mas a uma constatação inquietante: somos feitos de palavras, memórias e ficções. E é justamente aí que reside a potência da Língua.
SORAYA MARTINS

Soraya Martins é artista-docente, crítica de teatros e curadora independente. Autora do livro Teatralidades-Aquilombamento : várias formas de pensar-ser-estar em cena e no mundo(Editora Javali, 2023). Artista-docente, crítica de teatros e curadora independente. Curou o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo 2025 e o Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte – FIT-BH 2018 e 2024. Pós-doutora em Literatura, Artes e Mídias (UFMG). Professora do curso de Licenciatura em Teatro da Faculdade de Artes do Paraná FAP/UNESPAR.

SINOPSE
Durante uma aula, um professor esquece o próprio nome. Para recuperá-lo, mergulha em lembranças fragmentadas de sua origem, revivendo cenas e personagens da cidade industrial onde nasceu. A língua do fogo é um monólogo autoficcional de Vinícius de Souza, na qual o ator interpreta múltiplas vozes e figuras, numa performance polifônica e labiríntica. A trama percorre as zonas instáveis da memória, do sonho e da busca por identidade, enquanto revela antigos fantasmas da América Latina como o colonialismo e a violência estrutural. Entre o cômico e o trágico, o estranho e o familiar, o individual e o coletivo, o espetáculo se pergunta: como se constrói — e como se desfaz — a identidade de uma pessoa?
FICHA TÉCNICA
Texto e atuação: Vinícius de Souza
Direção: Paulo André e João Emediato
Trilha sonora original: Davi Fonseca
Direção de arte: Luiz Dias
Direção corporal: Rafael Batista
Iluminação: Felipe Tristão
Operação de som: Álvaro Antonio
Assistência de direção de arte: Carol Manso
Realização: Planos Incríveis
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