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Crítica de Lucrécia

Critíca Convidada | Por Carol Sarturi

Por Carol Sarturi13 de outubro de 2026 5 min
Fotografia por Luiza Portela.

Quando saí da peça escrevi

                              queria poder viver isso de novo

Lucrécia me pegou em cheio ao me jogar para o outro lado da vida. A quase morte. Quando os panos claros descobriram sua existência dupla - girando, girando, girando - o som do rádio precedeu o medo que estrutura toda a peça; o medo dela que, diferente do meu, é quase como um carinho, afago em saber que o futuro é menor que o passado.

                         Os olhos de Lucrécia brilham na luz.         
                          Como lampejos, as memórias.

A direção de Ana Tezza é certeira em esperar que nós tentemos juntar os pedaços insistentemente. Porque durante aquela uma hora e meia, tentar encontrar uma narrativa e um sentido que una toda a beleza que vemos nos coloca no mesmo lugar que Lucrécia está. Buscando.

Eu busquei. Na língua inventada, buscava referências, pistas do passado de uma mulher de 100 anos. Pequenas partes de uma grande história, como se nesse clichê residisse toda a essência da peça: a descoberta como ápice e o entendimento pleno como a apreensão do que vivi ali, na casa com poucos lugares, sentada no chão com cólicas.

Busquei compartilhar o medo com Lucrécia.

Quando parei de tentar entender, afundei.

Tenho muito medo da morte e, talvez por isso, tenha buscado em Lucrécia esse medo também. Mas não encontrei, até agora.

Quando a porta do guarda-roupa se fecha, cedo o lugar de meu medo para o dela, assim como Helena dividiu seu corpo com ela.

O teatro de bonecos, tão trabalhado pela trupe, ganha um novo sentido nesta montagem. Os atores não dão vida aos bonecos, a compartilham. Helena não é Lucrécia assim como Wenry não é Oslo. O corpo que enraíza outro corpo multiplica o número de pessoas à minha frente em um jogo temporal. Corporal.

Olhei muito para as mãos. São três, uma de Helena, uma de Lucrécia e uma das duas. Se movia com precisão e habitou o espaço como seu refúgio, sua coleção de memórias, sua última raíz.

Porque Lucrécia tenta muito. Ela lembra, mas não sabe o que. Ela sente, mas nós não sabemos por quem. Ela teme deixar a própria casa onde consegue, ainda, revisitar o irmão e os dias ensolarados em que as águas foram presentes. Em que a mente é frutífera.

É, também, a história de uma mãe.

Demorei para ver, na verdade, a ligação para o neto intercalada com goles de bebida, assim como demorei para soltar os dicionários que resgatei. Ana tem a sensibilidade de construir um histórico familiar apenas com o toque de um telefone e com a escolha de não deixar Lucrécia relembrar. Porque quando, num jogo entre presente e passado, vestígios do que se foi fazem-se na nossa frente, não vemos a história de uma mãe. Vemos as lembranças de uma mulher apaixonada. O amor pela vida de Lucrécia é corporificado por Helena. Sua atuação com e para Lucrécia demonstra toda a sua formação e doação, cada movimento é calculado de forma meticulosa e o que vemos é pura potência. Teatro.

Helena é tudo o que Lucrécia tem porque, dentre suas lembranças, a relação difícil com sua filha é escancarada, mesmo com apenas uma ligação. Solidão.

Sozinhez.

                                 Como aparições, as memórias.

Existe uma fantasmagoria impregnada na peça. A textura áspera dos bonecos em comparação ao límpido dos olhos que refletem as luzes focais. A ausência do corpo, no corpo. A morte que acontecerá e acontece como um choque.

Lucrécia não quer perder o controle que, no final da vida, se resume à sua casa e à sua história. O quanto é seu?

Quando se perde.

Ela luta até o fim, persiste em trancar a porta do guarda-roupa, arrastar cadeira, banco, mesa e bolsa. Tapar os ouvidos, fechar os olhos bem apertados. Mas não é suficiente. Perder o controle e deixar sua casa é deixar-se ceder pelo tempo, ali. Dói. Mas o medo é mais meu do que dela.

Na verdade, é todo meu.

Lucrécia, na dor, transbordou em mim, vida.

Quanta vida!

Estava cansada, rabugenta e - listando, listando, listando - com muitas coisas para fazer.

Parei e fui.

E que coisa boa.

Algumas coisas tem o poder de fazer o tempo parar. Lucrécia fez isso escancarando o tempo com a mais absoluta beleza e fragilidade, por meio de uma atuação sensível e de uma performance devastadora.

              Hoje na hora do almoço vi uma senhora e chorei.
                          Chorei porque temo não ser como ela.

Velha.

     Lembrei de Lucrécia que, com certeza, já me esqueceu.
Fotografia por Luiza Portela.
Fotografia por Luiza Portela.

LUCRÉCIA, 2026.

FICHA TÉCNICA

Direção: Ana Rosa Genari Tezza Dramaturgia: Ana Rosa Genari Tezza e equipe criativa Assistência de Direção: Cesar Matheus Elenco: Helena Tezza e Wenry Bueno Direção Musical: Arthur Jaime e Breno Monte Serrat Músicos: Arthur Jaime e Breno Monte Serrat Criação e construção de Bonecos: Eduardo Santos Cenário: Daniel Pinha Iluminação: Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski Figurino: Eduardo Giacomini Engenharia de adereços: Maria Adélia Curadoria de Objetos: Helena Tezza Preparação Corporal e Coreografia: Ane Adade Visagismo: Mozart Machado Montagem e Operação de Luz: Alexandre Leonardo Luft e Marcos do Prado Cenotécnicos: Anderson Quinsler e Vilson Kurz Costura: Belle Viana, Marino Carraro e Rose Mathias Soluções Técnicas/Eletrônicas: Tales Hein Logística de espuma: Jaap van Waalwijk van Doorn Projeto Gráfico: Gabriel Rischbieter Fotografias: André Tezza Registros das residências artísticas: Larissa de Lima Direção Executiva: Entre Mundos Produções Artísticas Direção de Produção: Dara van Doorn, Elza Forte da Silva Carneiro e Laura Tezza Produção: Flavia Longo Assistência de Produção: Mattheus Boeck Assistente de produção executiva: Alyssa Riccieri

LucréciaAve Lola

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