Críticas e Colunas
O que tentam calar continua vivo - por Gabi Coutinho
Poros Abertos e Medeias: a potência política de uma arte que se recusa a esquecer
Entrei no teatro como quem procura um lugar pra sentar depois de um dia difícil. Não sabia muito bem o que fazer com o que trazia comigo, mas havia alguma coisa naquele ar que me dizia que, por alguns instantes, eu poderia deixar o mundo do lado de fora. **Só que o mundo entrou junto. Com o peso dos últimos dias e uma bagagem de 1964. **

Por alguns instantes, tive a sensação de atravessar os anos e ter sido transportada para um Brasil que existiu antes de mim, mas com marcas que de alguma forma eu reconheço. Só que havia uma parte de mim que sabia: eu continuava aqui. No presente. Neste exato instante da história. Talvez por saber que em 1964, se estivesse realmente lá, eu não poderia assistir uma peça falando sobre isso.
Era daqueles paradoxos que mexem com a gente: pensar que a arte que me transportava para aquele tempo era justamente uma das coisas que poderiam ser silenciadas. E enquanto agradecia por viver em um agora no qual ainda posso entrar em um teatro para pensar e elaborar coletivamente aquilo que me atravessa, senti medo. Um arrepio por pensar que essa liberdade que tantas vezes tratamos como garantida deixe de ser tão óbvia.
Na mesma semana, me encontrei novamente com um sentimento parecido refletindo um tempo que insiste em não passar. Histórias contadas por homens que distorcem e dominam as mulheres - seus corpos, suas dores e seus destinos. Uma narrativa que atravessou séculos contada por vozes sem lugar de fala, que há muitos foi erroneamente contada como a única versão possível.

Pensei em como é uma violência particular ver a revolta transformada em loucura, a liberdade em ameaça, a dor em mito; ao mesmo tempo em que me emocionei com a força da cultura quando para rasgar roteiros antigos e existir além das palavras que já foram escritas. Em meio às dores do que gostaria de chamar de pesadelo mas era a realidade, a esperança em uma ancestralidade transmitida pelo corpo, pela memória, pela raiva e pelo afeto.
Para além das paredes do teatro, encontrei no decorrer dos dias momentos indigestos. Aquele tipo de refeição que mesmo sem pedir tentam nos enfiar goela abaixo e que certamente ficam atravessadas e pesam no estômago. Eu tentava mudar de assunto e desviar os olhares mas via que de nada adiantava. O** corpo sabe quando é violentado, mesmo quando tentam convencê-lo de que o que se vê adiante é algo natural.**
Com uma dor física mas que também ardia na alma, lembrei do que a cena me ajudava a digerir. Não por tornar o alimento menos amargo ou oferecer respostas fáceis, mas por dar forma ao que ainda era difícil de nomear. Diante de outros corpos, vozes e gestos, eu podia me reconhecer e encarar o que era colocado no meio da sala.

Da sensação de trava e bloqueio, vi renascer uma potência que transborda meu eu-artista e transcende meu eu mulher, patriota, democrática, cidadã. Alguém que através da arte aprendeu cada vez mais a olhar para além da própria realidade e entender que toda arte é política. Alguém que tantas vezes senta numa plateia não para fugir da realidade, mas pela chance de voltar a ela com os olhos mais abertos.
De certa forma, ali consegui entender porque governos doentes começam pela censura, pelo silenciamento da cultura. A arte não impede que a história se repita, mas pode nos ajudar a reconhecer seus ecos no presente. Não garante a liberdade, mas nos lembra do que podemos perder quando deixamos de defendê-la. Há histórias que precisam ser esquecidas para que determinadas estruturas continuem de pé. Mas nós não deixaremos. Não enquanto pudermos lutar.

Nas últimas semanas, Gabi Coutinho assistiu a Poros Abertos, da Cia. Senhas, e Medeias, da SIM Companhia de Teatro. Dois espetáculos que, cada um à sua maneira, trouxeram histórias do passado que seguem presentes e que o teatro ajuda a contestar. Duas peças que especialmente no contexto em que estamos inseridos, diante da ameaça de existir, deveriam ser obrigatórias e furar a bolha para atingir quem tiver coragem de encarar a verdade sobre os fatos. Se olhar no espelho não permite enxergar a dor do oprimido ou a cara do opressor, que olhar para o lado permita encontrar o mínimo de bom senso para não deixar que certos absurdos sigam se repetindo.
SERVIÇO Poros Abertos:
14 a 25 de outubro de 2026
Quarta a sexta às 20h Sábado e domingo às 17h e às 20h
Espaço Obragem - Al. Júlia da Costa, 204 Ingressos: 20,00 e 10,00 - https://comprenozet.com.br/
*Às quartas-feiras – entrada gratuita **Aos sábados – tradução em libras (entrada gratuita para comunidade surda)
SERVIÇO Medeias:
De 14 a 25 de outubro de 2026 Terça, quartas, quintas e sextas, às 20h Sábados, às 17h e às 20h Domingos, às 16h e às 19h
Local: Teatro José Maria Santos Rua Treze de Maio, 655 - São Francisco, Curitiba - PR
Classificação etária: 16 anos Duração da peça: 70 minutos
Ingressos gratuitos distribuídos 1h antes da sessão
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