Críticas e Colunas
Quantos quilômetros cabem em 2 metros quadrados?
Por Gabi CoutinhoComo pode uma das peças mais minimalistas que eu já assisti ter sido também uma das mais “gigantes”? A Menina e a Árvore, produção da Dobra Teatro que veio à Curitiba pelo edital da Caixa Cultural, me impactou fortemente por sua grandiosidade. E isso acontecer co
Atualizado em 27 de agosto de 2026

Por Gabi Coutinho
Como pode uma das peças mais minimalistas que eu já assisti ter sido também uma das mais “gigantes”? A Menina e a Árvore, produção da Dobra Teatro que veio à Curitiba pelo edital da Caixa Cultural, me impactou fortemente por sua grandiosidade. E isso acontecer com 4 atores em uma plataforma de 2m2, com toda a sonoplastia feita em cena e nenhum recurso adicional de cenário, fez a experiência se tornar ainda mais especial.
Todo esse contexto me emocionou ao pensar no quanto ser artista pode te transformar numa verdadeira imensidão, que vai de contar a histórias a ser a história em si, muitas vezes sem dizer uma única palavra.
Além de uma dramaturgia extremamente tocante, a direção da peça também assinada por Matheus Lima é perspicaz em suas escolhas. Com o corpo, as expressões e a energia da cena, podemos visualizar lugares, jornadas e até mesmo efeitos especiais. Destaque para uma cena de “guerra de caquis” que me encantou e demorou pra me lembrar de que eu não estava vendo algo com diversos recursos audiovisuais inclusive, uma vez que os caquis, a câmera lenta e todo o cenário envolvente da narrativa podiam facilmente ser vistos pela plateia mesmo sem existirem materialmente.

Foto: Gabi Coutinho
A Menina e a Árvore me fez lembrar porque faço e amo Teatro, e entender a grandiosidade da mente humana, especialmente como artista, mas também como plateia. Recentemente escrevi um texto que tocava na importância do Teatro infantil para todas as idades, que ressaltava o Teatro como um espaço seguro para sentir. E esse espetáculo certamente reforça esse ponto em profundidade, resgatando a criança interior em cada adulto. A peça direciona a mente para o momento presente, ao mesmo tempo em que o imaginário nos transporta para longe e nos guia a uma verdadeira viagem pelo espaço e pelo tempo. Como público, lembrei de quando “caminhar com os dedos” poderia mesmo ser andar por uma longa estrada, um sopro poderia ser ventania e o abaixar ou aumentar da luz ser verdadeiramente o nascer e o por do sol.
O brilhantismo se completa pela sensibilidade visível em todo o elenco (na temporada em Curitiba: Juliana Brisson, Helena Marques, Reinaldo Dutra e Matheus Lima), que sabem exatamente como estabelecer conexão e leveza. A peça não busca causar incômodo e é muito mais uma peça para sorrir do que para chorar, mas deixei escapar algumas (várias) lágrimas em muitos momentos, simplesmente por perceber o amor e carinho da equipe pelo projeto.

Foto: Maduh Cavalli
Saí do teatro com a sensação de que carregava uma floresta inteira dentro do peito; e ela cabia ali, entre uma respiração e outra. Como se alguém tivesse aberto uma fresta invisível no meu imaginário e me lembrado que ele continua funcionando perfeitamente (obrigada). Fui embora com vontade de brincar mais sério, de levar menos peso, de acreditar outra vez que o mundo pode ser reinventado com quase nada: um gesto, um olhar, um corpo disponível. A Menina e a Árvore me devolveu uma delicadeza que às vezes a pressa tenta roubar.
E, no fim, talvez seja isso: descobrir que ser gigante é questão de ponto de vista, e dois metros quadrados podem ser infinitos quando a gente decide habitá-los com presença.
Leia também

Críticas e Colunas
A mistura de cores num pacote de balas de goma - por Gabi Coutinho
Esses dias fui numa distribuidora de doces e escolhi um pacotinho de balas de goma daqueles que parecem ter mais da vermelha, que quase unanimemente é a favorita. Uma admiração que não é de hoje, mas que cada vez mais surpreende, sabe?E não que eu não goste das outras cores mas,
No Teatro Curitiba26 de agosto de 2026 5 min de leitura

Críticas e Colunas
Como foi que eu vim parar aqui? - uma reflexão de muitas perspectivas sobre o processo de Lucrécia, da Trupe Ave Lola
Por Gabi CoutinhoComo foi que eu vim parar aqui?Me pergunto mas não busco uma resposta pois tenho medo que visto de fora pareçadelirante demais. Um devaneio que ao invés de trazer explicações plausíveis para o lugaronde me encontro soa como loucura quando visto de fora.Ouço uma m
No Teatro Curitiba22 de agosto de 2026 3 min de leitura

Críticas e Colunas
Por trás de narizes vermelhos - por Gabi Coutinho
Durante muito tempo, palhaços foram criaturas que eu preferia manter distância. Não sei se por medo deles, ou por medo do que eles pareciam esconder. Havia algo desconcertante naquele sorriso pintado. Uma maquiagem que apagava o rosto de alguém para inventar outro. Eu olhava e pe
No Teatro Curitiba04 de agosto de 2026 4 min de leitura