Críticas e Colunas
Sobre “Deriva”; por Fernando Pivotto
[Este texto reflexivo foi comissionado pela Súbita Companhia, quando da realização da segunda edição da Plataforma Súbita. O convite incluía um bate-papo crítico sobre o espetáculo Deriva, da companhia, e as mostras de processo de Suíte Deserto, de Korpa Enkantada e Mandíbula, de
Atualizado em 27 de agosto de 2026

[Este texto reflexivo foi comissionado pela Súbita Companhia, quando da realização da segunda edição da Plataforma Súbita. O convite incluía um bate-papo crítico sobre o espetáculo Deriva, da companhia, e as mostras de processo de Suíte Deserto, de Korpa Enkantada e Mandíbula, de Andreia Porto. Para mais informações, entre em contato portudomenosumacrítica@gmail.com]

[[Se possível, leia ou ouça este texto em movimento, ou observando o movimento da cidade]]
Pela porta do café, vejo uma mulher de casaco pesado e cachecol azul-escuro passando com o cachorro.
O céu, cor de chumbo, deixa o horizonte chapado, tirando um pouco da profundidade da vista — a ladeira que desce à frente do café parece se tornar bidimencional à distância.
A chuva parou, mas é temporário.
Uma mulher de boné sobre o cabelo loiro, preso num rabo de cavalo, me indica o Bar do Alemão, perto da Cavalo Babão. Os saltos de uma mulher batem pelo piso de madeira, à medida em que ela anda rumo à próxima sala.
Um casal, ambos de jaquetas puffer, se abraça, sentados num banco de madeira. Ao fundo, um homem tira uma foto de uma árvore do jardim. Mais ao fundo, as portas e vitrines dos estabelecimentos comerciais da rua estão fechadas. Pai e filho comem terra.
Um homem dirige uma empilhadeira, carregando praticáveis de ferro na rua. Kate Bush toca nos meus fones de ouvido, enquanto desço a ladeira de horizonte bidimencional. Um casal abre as portas do carro estacionado — ele reclama da chuva que voltou. Na loja de produtos variados, presilhas de cabelo coloridas, a partir de R$ 0,60, contrastam com o branco das paredes e do piso em porcelanato. A vendedora, sorridente, pede para que eu teste o guarda-chuvas. Agora CLmanda mensagemno app,perguntando se eu quero curtir. Débito, eu respondo à vendedora.
Uma moça de mullet, tênis de animal print com cadarços néon e meias quadriculadas conta uma história engraçada. O Maps me pede pra entrar à direita na rua Xis-Vê de Novembro. Uma mulher, de guarda-chuva vermelho de bolinhas, posa para uma foto. Um prédio de inspiração brutalista abriga uma loja de roupas com uma vitrine onde se lê “Promoção Dia das Mães” em EVA com glitter. Os tijolos de vidro do andar de cima estão sujos de fuligem. As galerias comerciais e lanchonetes parecem as da Praça Ramos, o que me dá um reconfortante senso se familiaridade — a memória muscular de andar entre elas faz meu corpo se lembrar de casa. Um cara bate em mim com o guarda-chuva, e eu mando o arrombado tomar cuidado — outra coisa que me faz lembrar das ruas de casa. Duas garotas, aparentemente muito jovens pra tomar Ice, tomam mesmo assim. Lock it, lock it, lock itcanta Charli XCX no meu fone de ouvido. Só tem uma solução, é nóis fazer parapapá, garrar, beijar, fazer parapapá, toca em uma lanchonete (de onde eu conheço essa música?). No elevador do prédio de Agora CL, uma moça reclama da Stephanie com a amiga. Um vendedor avisa a um casal que caiu algo: o preço. Plínio, o Velho conta, em História Natural, sobre a Donzela de Corinto. Desolada porque seu amado fará uma viagem ao estrangeiro, a moça aproveita a luz de uma das lamparinas e traça uma linha ao redor da sombra do jovem, projetada na parede. Agora ela tem algo para ajudá-la a suportar a saudade do amado — surge, assim, o retrato. Apesar da chuva, um grupo de amigos come churrasquinho e toma cerveja na Saldanha Marinho. Imaginetoca no teclado.
Não existe mapa 1:1, Borges e Eco já nos falaram. É impossível que a representação de algo dê conta do algo que ela representa, não importa quão fiel ela tente ser. Representações sempre são abstrações, elaborações, simplificações de seu modelo, e funcionam justamente por isso.
Observar um mapa me permite perceber o território com um distanciamento que habitar o território não permite. Retratar a pessoa amada me faz refletir sobre sua presença, sua ausência e sua existência no instante do retrato de um jeito que conviver com a pessoa não permite.
Digo isso porque a Curitiba em cena em Deriva, da Súbita Companhia, não tenta ser uma representação 1:1 da cidade onde a obra foi criada. Um pouco mapa da cidade, um pouco retrato dela, a peça plasma o território pesquisado a partir da relação dos corpos dos performers com o município.
Seus trajetos, meios de habitar, relações interpessoais e memórias afetivas são os insumos que a dramaturgia de Maíra Lour (também diretora) e Pablito Kucarz (também ator) costura, investigando como a palavra impacta o corpo dos performers. Descritivo, o texto traduz a experiência de viver em Curitiba de modo concreto, objetivo, quase documental e é deste rigor, quase secura, que surge a poesia da peça.
Se toda tradução é também uma co-autoria, a Curitiba de Derivaé uma Curitiba co-fundada pela Súbita. Ela tem uma vibração única, muito particular, muito própria da peça, que se desloca da cidade que está do lado de fora do teatro.
Sob o olhar e a escuta do grupo, o caos e cacofonia da cidade se orientam em uma coreografia cênica em que os corpos dos performers estão sempre em movimento, e sempre em relação a algo (ao espaço, aos objetos, à luz, à palavra, ao outro, etc). As palavras e os corpos que as dizem e ouvem sobrepõem-se uns aos outros, apresentando novas compreensões a partir de sua justaposição. Nunca há pausa ou silêncio, do mesmo jeito que não há pausa ao se olhar para a rua da janela, ou a caminhar pela rua em si. Assim, a peça fala da cidade a partir da pulsação que a mantém fervilhando (mesmo na calmaria). Sob a direção de Lour, o palco assume a acepção grega de caos: o caldeirão borbulhante e entrópico de onde tudo pode surgir.
Esta Curitiba sonhada/encenada/habitada pela Súbita surge amparada também pela paisagem sonora de Álvaro Antônio. Os sons coletados da rua, samples e remixes incluem à coreografia uma cacofonia que remete à multiplicidade de sentidos experenciados em uma cidade — locais familiares e acolhedores lado a lado com locais perigosos.
O mesmo vale para o figurino de Isabella Brasileiro. As cores fortes, vibrantes e contrastantes que cobrem os corpos dos performers remetem à hiperestimulação visual de grandes centros urbanos — placas, anúncios, semáforos, LEDs, presilhas coloridas a R$ 0,60, tudo disputando atenção no mesmo campo de visão. Da mesma forma, a leveza dos tecidos usados nos figurinos valoriza os movimentos do coro urbano em cena.
Deriva fala da pulsão de vida individual necessária para se viver em uma cidade sem ser devorado por ela, da mesma forma que fala do titã que é a cidade, composta por uma teia de pulsões de vidas que a habitam e a animam.
Na residência de espectadores que eu coordeno, a Estufa, uma das perguntas-disparadoras que usamos ao fruir um espetáculo é: *como o seu corpo respondeu à peça?*Saiu tenso? Energizado? Esgotado? Relaxado? Como ele estava ao entrar na peça, como ele estava ao sair dela, e por quais estados ele passou durante a encenação? O que causou essa mudança? A peça causou isso de modo proposital ou acidental?
Acho que essa pergunta faz sentido numa peça como *Deriva,*para entendermos como experenciamos Curitiba e como experenciamos a Curitiba Derivada — e porque. Veja: já que nenhum performer nuncapara de se mexer, meus neurônios espelho são estimulados de modo que eu também me sinta, de alguma maneira, incluído naquele caos — não como se eu estivesse me movendo também, mas talvez num estado de relaxamento atento.
Talvez o público se interesse em perguntar como seu corpo se sentiu em relação aos corpos em cena. O que o fez se sentir assim, e o que essa sensação lhe fala sobre Curitiba? Quanto tempo essa sensação dura, ao longo do trajeto de volta à casa? É a cidade que fará essa sensação mudar, ou é essa sensação que fará a experiência da cidade mudar?
Todas as cores das luzes de Lucri Reggiani fazem você ver Curitiba de um jeito particular? Se você conhece, ou se você vai conhecer algum dos locais citados na peça, o que o espetáculo te diz sobre ele — e o que ele te conta sobre a peça?
Nego Bispo disse que o território não é um lugar onde a gente mora, é um lugar onde a gente é. Quem você foi na cidade derivada, e quem você será ao sair do teatro?
São 21:14 e faz 8 graus. 21:16, e a mensagem de Agora CLilumina minha tela: vai ter festa no Dante e eu devia colar — o marido dele vai me adorar. 21:17, a garoa continua, e eu me pergunto se animo ir jantar no Nina (ou qualquer outro local que esteja aberto e me sirva qualquer coisa quente).
21:18, a sessão de hoje de Derivajá deve ter acabado, e cada minuto que passa (21:19) me afasta mais e mais da peça. Essa crítica é tanto uma representação da peça quanto a peça é de Curitiba. Lembro da história da Donzela de Corinto, e que o retrato do amado é também uma prova do tempo que os separa— o retratado já é outra pessoa após a conclusão do retrato, porque o tempo já agiu sobre ele; o amado nunca voltará, ainda que o retrato permaneça, porque a viagem o mudará para sempre. A peça de hoje já não é a mesma de ontem, e Curitiba já não é também a cidade do dia anterior. 21:25, I Wanna Dance With Somebody tocando. Uma das coisas mais legais dos retratos é que eles são todos, sem exceção, um *memento mori:*uma lembrança de que o tempo passa, a vida é fugaz. Vamos todos morrer, e aquele registrado no retrato já não é mais.
21:29, a peça sobre a qual essa crítica se dirige não existe mais e também segue existindo (porque segue em cartaz, e porque segue em mim e em quem mais a assistiu). A Curitiba à qual Derivase dirige existe e não existe mais (os pombos não estão, agora, às 21:31, comendo no Passeio, da mesma forma que estavam quando alguém os observou com o objetivo de levá-los pra cena).
É bonito que o teatro seja assim, efêmero, fazendo-se e refazendo-se a cada sessão, noite após noite. Não sei ainda o que isso me diz sobre a cidade, mas talvez eu não precise saber disso agora — talvez eu só conclua essa sinapse quando voltar a Curitiba, daqui a alguns anos, e reconheça/desconheça a cidade, ou talvez eu conclua hoje, na pista de dança. Tem festa na Dante.
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Crítico convidado

Fernando Pivotto é artista, educador e crítico. É membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro e idealizador do Tudo, Menos Uma Crítica . Desde 2023 pesquisa ações crítico-performáticas nas atividades Ponto de Encontro e Boteco Crítico, que integra o Projeto Arquipélago. Conduz, pelo segundo ano consecutivo, uma residência com espectadores chamada Estufa.
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FICHA TÉCNICA DE DERIVA
Direção artística: Maíra Lour
Dramaturgia: Pablito Kucarz e Maíra Lour
Direção de movimento: Juliana Adur
Elenco: Dafne Viola, Flavia Imirene, Nathan Gabriel, Pablito Kucarz e Patricia Cipriano
Direção de produção: Gilmar Kaminski
Produção executiva: Dânatha Siqueira
Assistência de direção e contrarregragem: Anna Wantuch
Orientação dramatúrgica: Carla Kinzo
Interlocução artística: Iván Haidar, Giovana Soar e Sol Faganello
Trilha sonora original e operação de som: Álvaro Antonio
Iluminação e operação de luz: Lucri Reggiani
Cenografia: Gabrielle Windmuller
Figurino: Isbella Brasileiro
Colaboração em voz: Julia Kluber
Realização: Súbita Companhia de Teatro e Flutua Produções
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