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“Toda vez que alguém troca um sonho por uma meta, morre um poeta.” – Uma aventura pela Cidade Sorriso

No Teatro Curitiba / 31 de julho de 2025“Toda vez que alguém troca um sonho por uma meta, morre um poeta.” – Essa frase, retirada do próprio texto do espetáculo “Madrugueiro, ou Alice na Cidade Sorriso” da companhia Nanna Núcleo de Criação, resume bem o que sentimos ao assistir e

Por No Teatro Curitiba31 de julho de 2025 6 min

Atualizado em 27 de agosto de 2026

“Toda vez que alguém troca um sonho por uma meta, morre um poeta.” – Uma aventura pela Cidade Sorriso

No Teatro Curitiba / 31 de julho de 2025

Foto de capa: Por Nay Klym

Foto de capa: Por Nay Klym

“Toda vez que alguém troca um sonho por uma meta, morre um poeta.”– Essa frase, retirada do próprio texto do espetáculo “Madrugueiro, ou Alice na Cidade Sorriso” da companhia Nanna Núcleo de Criação, resume bem o que sentimos ao assistir essa peça tão delicada quanto potente. Uma apresentação leve, que entretém de maneira descontraída e que, mais do que isso, acolhe o espectador. A gente ri, se emociona e se diverte, não é esse tipo de espetáculo que chega com impacto, que te arrebata de imediato. A peça encanta de outro jeito: ela te conduz com leveza, com cuidado, com beleza nas pequenas coisas. É preciso estar aberto a essa delicadeza. É como poesia: sutil, mas transformadora.

O elenco está afinadíssimo, e as coreografias nos ganharam logo de cara pela leveza e pela sincronicidade encantadora. É como se cada gesto, cada movimento no palco, estivesse em harmonia com a emoção da cena. A iluminação é um ponto alto: nos transporta diretamente para o universo mágico da peça, nos fazendo enxergar, com os olhos e com o coração, cada detalhe da Cidade Sorriso.

O repertório musical é um dos grandes trunfos do espetáculo. Se as versões originais já são um afago no peito, as adaptações para ensemble com aberturas vocais e outros toques de teatro musical ficaram tão fluidas e bem arranjadas que facilmente poderiam integrar uma playlist do dia a dia. Inclusive, deixamos aqui o nosso apelo de que precisamos dessa trilha nas plataformas! A curadoria, que vai de Nhô Belarmino a Jovem Dionísio, mostra um domínio de linguagem e um respeito profundo à pluralidade sonora do Paraná.

A cenografia, mesmo com momentos grandiosos como a estação-tubo que se integra às coreografias, mantém uma simplicidade poética que aproxima palco e plateia. A estética da peça dirigida por Nanna Mercury flerta com o lúdico, com elementos caricatos e simbólicos que embaralham o real e o imaginário. Nós nos vimos como Alice, transitando entre sonho e memória, entre saudade e descoberta. É teatro que pulsa sensibilidade sem perder o rigor.

Por Maduh Cavalli

Por Maduh Cavalli

Gabi Coutinho:

Eu, Gabi Coutinho, sempre fui apaixonada por Curitiba de uma maneira que nunca soube explicar. Mas Madrugueiro traduziu essa sensação de um jeito que vai muito além das palavras: a peça transforma a cidade em linguagem cênica no corpo, na voz e na trilha, tão bem que agora quem me ouve falar com tanto amor dessa cidade talvez finalmente entenda porquê.

Confesso que no início, com as pausas para aplausos induzidas a cada música, levei um tempo para me entregar à narrativa. Essa quebra de fluxo no começo dificultou um pouco a imersão. Mas à medida que a musicalidade se aprofundava e as coreografias IMPECÁVEIS ganhavam força, fui completamente capturada. A condução da encenação pelo corpo e pela música, trabalhada em camadas sutis, permitiu que a dramaturgia emergisse de maneira orgânica e sensorial. Tudo se encaixava tão perfeitamente que só não parecia robótico por conta da emoção e da leveza envolvidos. Era quase hipnotizante.

Como boa capricorniana que já viveu o burnout de perto, obcecada por metas e produtividade, me vi profundamente tocada por essa história. Hoje, tão conectada com a arte, percebo o quanto a escrita, o teatro e a música podem ser tão essenciais quanto números e resultados, ou talvez ainda mais. Madrugueiro me acolheu neste lugar. Ver no palco uma narrativa que fala sobre reencontro com o sensível, com os sonhos esquecidos e com a poesia do cotidiano foi como olhar no espelho e lembrar que a arte já me salvou muitas vezes sendo artista. E nesse caso, mais uma vez me transformou como plateia.

Por Maduh Cavalli

Por Maduh Cavalli

Maduh Cavalli:

O texto de Anna Toledo é uma verdadeira poética da cidade de Curitiba. Em cada fala, em cada imagem construída pela palavra, reconhecemos traços profundos da cidade: suas paisagens, seus silêncios, seus hábitos e até suas peculiaridades climáticas. Para quem vive aqui, é impossível não se sentir abraçado pelas referências sutis, ou explícitas, que brotam do palco. Ao mesmo tempo, o espetáculo não se fecha em si. Ele se abre como uma janela generosa para quem vem de fora, oferecendo um convite sensível a conhecer Curitiba não apenas como cenário, mas como personagem viva, pulsante e cheia de nuances. É uma dramaturgia feita de dentro para fora: nasce da alma da cidade e se irradia em direção a quem assiste.

Como grande admiradora da arte local, em especial da nossa música, foi impossível conter a emoção ao reconhecer as canções que costuram a trilha sonora do espetáculo. Mais do que uma ambientação sonora, a trilha funciona como uma extensão do texto: ela nos atravessa, ativa memórias, provoca sorrisos e até nos emociona. A trilha sonora é mais do que um elemento de cena; é memória e identidade.

E a poesia, que é colocada de um forma tão bonita, tão necessária no espetáculo. Falar sobre poesia hoje é falar sobre ver o mundo através das coisas, e não apenas por cima delas. Em um tempo em que tudo é urgente, ver um espetáculo que nos convida a desacelerar e a perceber o que há de poético na cidade, na rotina, na vida, é um presente.

Como artistas de teatro musical, assistir a uma obra que costura tão bem dança, música e teatro já seria especial. Mas o espetáculo ainda mergulha na literatura e na poesia, o que eleva tudo a um novo patamar. Madrugueiro é um manifesto lírico que celebra o sensível, em uma dramaturgia inspirada por Helena Kolody, Paulo Leminski e Poty Lazzarotto, e isso se sente em cada detalhe da encenação.

A “Cidade Sorriso” nos lembrou que ainda dá tempo. De sonhar, de sentir, de desacelerar. De ouvir os poetas antes que eles desapareçam.

Serviço:

Espetáculo: Madrugueiro ou Alice na Cidade Sorriso

Onde:

Teatro Regina Vogue, Av. Sete de Setembro, 2775 – 2004 – Rebouças (Shopping Estação)

Quando:

Quinta-feira (31/07) Estreia às 20h.

Sábado (02/08) às 16h e às 20h.

Domingo (03/08) às 15h e às 18h

Classificação: Livre

Realização: Nanna Núcleo de Criação

Direção Geral: Nanna Mercury

Roteiro e Letras: Anna Toledo

Direção Musical: Tony Lucchesi

Ingressos: a partir de R$ 25,00

Vendas pelo Disk Ingressos: Link

Texto por Gabi Coutinho e Maduh Cavalli

Fonte original

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