Críticas e Colunas
Um endeusamento sem respostas - conto-crítica sobre Versão Demo
Por Gabi CoutinhoSempre desconfiei das frases que chegam prontas. Elas têm um peso estranho, como se viessem acompanhadas de uma assinatura invisível que diz: “não mexa”.Passei muito tempo achando que o problema era meu. Eu escutava afirmações categóricas sobre arte, sobre vida,
Atualizado em 27 de agosto de 2026

Por Gabi Coutinho
Sempre desconfiei das frases que chegam prontas. Elas têm um peso estranho, como se viessem acompanhadas de uma assinatura invisível que diz: “não mexa”.
Passei muito tempo achando que o problema era meu. Eu escutava afirmações categóricas sobre arte, sobre vida, sobre o que é certo, sobre o que é possível… e sentia um leve ruído.
Não era discordância imediata, era algo mais sutil. Uma pergunta que tentava nascer e era rapidamente abafada pelo constrangimento.
Eu aprendi que questionar incomoda. Então eu ficava quieta, mas o silêncio não resolvia.
As respostas prontas continuavam ali, como paredes erguidas em corredores estreitos. E eu caminhava entre elas com a sensação de que havia portas escondidas que ninguém queria abrir. Sem janelas com brechas para respiro, sem passagem de luz ou chance pra mudar o trajeto, eu me sentia sufocada mas seguia confiante acreditando na salvação.
Com o tempo, comecei a perceber que o desconforto não vinha da falta de respostas.
Vinha do excesso delas.
Tudo parecia decidido antes mesmo da pergunta existir.
O significado. O caminho. A interpretação. A conclusão.
Era como assistir a uma história com o final já anunciado no cartaz.
E foi nesse terreno que algo começou a tensionar em mim. Uma vontade de interromper não para anular o que veio antes, mas para investigar possibilidades.
A primeira vez que argumentei de verdade, senti quase medo. Eu abaixei a mão muitas vezes antes de chegar a minha vez. Temia não a discordância, mas o vazio que poderia surgir depois. Sentia dor por parecer deslocada quando indagava se minhas raízes estavam mesmo no lugar certo. Talvez por não sentir que ali era o meu lugar mas, acredito acima de tudo, que era principalmente porque não queria efetivamente me enraizar a lugar nenhum.
Mais do que encontrar conclusões, eu me interessava pelo movimento. Pela construção. Pelo atrito entre ideias. Pela tensão que existe quando ninguém tem certeza suficiente para encerrar o assunto. Há algum suspense nisso, que me faz afirmar com convicção que cada possibilidade permanece viva.
A instabilidade, que antes me assustava, passou a me sustentar. Cada frase pode virar a cena e tudo, absolutamente tudo, passa a ser um teste e não uma versão definitiva.
Deixei de buscar minha cura ou segurança naquilo que já está escrito e vi diante dos meus olhos a liberdade para viver e, também, parar criar. Questionei o formato tradicional de fazer uma crítica de teatro, preferir dançar na chuva do que ficar segura no cais, optei por valorizar o incompleto em busca contínua pra se concretizar.
Endeusei a dúvida e a aplaudi de pé. Inclusive por ver que muitos ao redor preferiram levantar e deixar a sala antes do final. Eu prefiro o incômodo à indiferença.
_______*
As peças da Mostra Insubmissa, no 34° Festival de Curitiba, foram um dos “gatilhos” para Gabi Coutinho escrever as críticas em formato de conto. E um pouco dessa “inquietação” com formas prontas veio de Versão Demo, que trouxe uma nova perspectiva sobre verdades absolutas.

Foto: Thaís Andressa
Sinopse
Ele já foi o favorito do Patrão. Agora é persona non grata. Neste solo irreverente, o chamado Senhor das Trevas atravessa tempos e vozes para narrar, com humor e acidez, a sua versão do livro mais vendido do mundo; uma história antiga demais para ser esquecida — ou aceita sem questionar.
Ficha técnica
Grilla! / Trupicada / Trupe Qualquer / Direção: Suzana Nascimento / Texto e Atuação: Tairone Vale / Interlocução Dramatúrgica: Rodrigo Portella / Projeto de Iluminação: João Gioia / Trilha Sonora Original: Federico Puppi / Direção de Arte e Produção Executiva: Cris Bourgeaiseau.
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