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Um Manual perfeito pra coisas que certamente não constam em nenhum manual

Por Gabi CoutinhoFabulação. Uma palavra que tenho ouvido com frequência nos últimos tempos. Uma palavra bonita para algo que de alguma forma fazemos desde sempre (mas na minha humilde opinião deveríamos fazer ainda mais): transformar lembranças em histórias, ausências em imagens,

Por No Teatro Curitiba04 de junho de 2026 5 min

Atualizado em 27 de agosto de 2026

Um Manual perfeito pra coisas que certamente não constam em nenhum manual

Por Gabi Coutinho

Fabulação. Uma palavra que tenho ouvido com frequência nos últimos tempos. Uma palavra bonita para algo que de alguma forma fazemos desde sempre (mas na minha humilde opinião deveríamos fazer ainda mais): transformar lembranças em histórias, ausências em imagens, dores em narrativas que podemos atravessar.

Fabular não é fugir da realidade. É encontrar outras formas de habitá-la. É permitir que aquilo que parece grande demais para ser explicado encontre espaço na imaginação. E talvez por isso eu tenha pensado tanto nessa palavra durante Manual de como não esquecer meu nome.

Porque existem temas que parecem resistir à cena. Temas para os quais ironicamente não existe um manual, e que tocam lugares muito profundos de nós.

Como falar sobre o Alzheimer? Como contar a história de alguém que vê as próprias lembranças escorrerem pelos dedos? Como transformar em teatro a perda gradual dos nomes, dos rostos, dos caminhos?

O espetáculo encontra uma resposta.

Não através de explicações, mas daquela que já mencionamos: a fabulação.

Então surge uma mulher tentando não esquecer. Não apenas nomes, não apenas datas, não apenas os caminhos de volta para casa. Uma mulher tentando não esquecer a si mesma, enquanto outra mulher diante de nós conta essa história.

Manual de como não esquecer meu nome fala de perdas que não cabem em palavras simples. Fala da erosão lenta das lembranças, da fragilidade da identidade, da angústia de assistir alguém partir aos poucos sem sair do lugar. Mas curiosamente não é uma obra pesada. É delicada. Lúdica sem diminuir a gravidade do que conta.

Desde os primeiros minutos fui capturada. Talvez porque exista algo profundamente encantador em assistir Dancing Queen surgir em Língua Brasileira de Sinais.

Antes mesmo da história começar de fato, já havia ali uma declaração de intenções: o corpo como linguagem, a música atravessando outras formas de escuta, a memória ganhando novos contornos.

Uma atriz ocupa o palco e vejo se construir ali um universo inteiro.

A narrativa acontece em formato bilíngue, mas é impossível não perceber como Libras deixa de ser apenas um idioma e se torna dramaturgia.

Cada gesto parece carregar não apenas significado, mas textura, ritmo e emoção. As mãos contam histórias. Os braços desenham paisagens. O rosto completa frases que talvez palavra alguma conseguisse traduzir completamente.

Eu não falo Libras. Infelizmente. Mas em diversos momentos tive a sensação de estar diante de algo que alcançava diferentes públicos por caminhos distintos.

Imagino que espectadores surdos recebam camadas que escapam a mim. E, ao mesmo tempo, percebo como a encenação encontra formas de fazer essas emoções chegarem também aos ouvintes.

Não da mesma maneira, mas de outra forma igualmente potente.

Neste cenário, também há que se comentar que existe uma dramaturgia sonora delicadíssima dando apoio a tudo. Foi nessa sutileza que me deparei com uma das maiores surpresas da montagem. Produzidos ao vivo, os sons surgem sem alarde e criam atmosferas inteiras. O barulho dos objetos, pequenas intervenções musicais, texturas sonoras quase invisíveis vão desenhando espaços, lembranças e estados emocionais.

Nada parece excessivo. Nada disputa atenção. Tudo colabora. Os sons não ilustram a cena: eles transportam, ampliam a imaginação.

A mesma delicadeza aparece no cenário. Poucos elementos ocupam o palco, mas bastam para carregar uma memória. Cada objeto ajuda a construir um ambiente que existe tanto materialmente quanto dentro da imaginação.

A casa, as lembranças, os percursos da personagem e até os vazios vão surgindo diante dos nossos olhos sem que a encenação precise recorrer a grandes estruturas.

É um espetáculo que confia na força da sugestão.

E acerta.

Há aí uma grande força, uma potência.

Nessa subjetividade e nas múltiplas linguagens e interpretações que compreendem que lembrar nunca é um processo exato.

Memórias são fragmentos. São sensações. São objetos que ganham significados inesperados. São músicas que sobrevivem quando nomes desaparecem. São gestos que permanecem quando palavras faltam.

O Alzheimer desafia a lógica linear da narrativa. Quando o espetáculo responde criando imagens, jogos, deslocamentos e delicadezas que nos aproximam emocionalmente dessa experiência sem jamais tentar reduzi-la a uma explicação, chegamos o mais perto possível de entender o que essa dor representa.

Individualmente.

Na nossa própria essência.

O resultado é uma obra profundamente pessoal, que transita entre lugares íntimos que alcançam algo universal. Porque desconstruímos a memória como arquivo de fatos, nomes e datas. Entendemos que não há respostas fáceis.

Ao invés de nos dizer o que é esquecer, Manual de Como Não Esquecer Meu Nome nos convida a observar aquilo que continua existindo quando já não temos certeza do que lembramos. Nos faz questionar se o momento presente é feito do que realmente vemos na nossa frente, ou se nossa própria realidade é feita de fragmentos do que a gente mesmo cria entre o delírio, a verdade e o esquecimento.

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Sinopse:

“Se eu esquecesse de tudo, qual nome eu chamaria?”

Manual de Como Não Esquecer Meu Nome conta a história de Eunice, avó da atriz em cena, e aborda temas universais como família, memória e os afetos que envolvem o Alzheimer. Com dramaturgia bilíngue em Português e Libras, a peça é um encontro com as memórias que nos tornam quem somos.

Serviço:

Manual de Como Não Esquecer Meu Nome

Datas: 28 a 31 de maio e 4 a 7 de junho (quinta a domingo)

Horários: Qui e sex às 20h | Sáb às 18h e 20h | Dom às 16h e 18h

Local: Mini auditório Glauco Flores de Sá Brito - Teatro Guaíra (Rua Amintas de Barros, 70 - Centro)

Duração: 50 minutos

Classificação: Livre

Língua: Português e Libras

Ingressos: R$ 40 (inteira) | R$ 20 (meia-entrada) + taxas

Link:

https://www.diskingressos.com.br/grupo/2956/2026-06-07/pr/curitiba/manual-de-como-nao-esquecer-meu-nome

À venda pelo Disk Ingressos e na bilheteria do teatro

Instagram: @teatromanual

Apoio: Larissa Camargo Confeitaria | Garalhufa Escola de Atuação | Padaria América

Ficha técnica:

**Direção:**Laís Cristina |**Atuação:**Amanda Curedes | **Dramaturgia:**Amanda Curedes e Laís Cristina | **Consultoria em Libras:Gabriela Grigolom e Nathan Sales| Intérprete de Libras:Nathan Sales| Músicos:**José Moura e Paulo Chierentini | **Trilha original:José Moura, Paulo Chierentini e Wenry Bueno| Iluminação:**Anry Aider | **Operação de som:Nathani Ribeiro| Cenografia:Kamile Enzo| Cenotécnicos:Luis Curedes e Juvenal Pereira| Figurino:**Belle Viana | **Preparação corporal:Ane Adade| Interlocução acadêmica:Stela Fischer, Milena Flick, Márcio Mattana e Giovana Maria de Oliveira| Produção:Laís Cristina e Luiza Helena| Mídia e comunicação:**Luiza Helena | **Assessoria de Imprensa:**Bruna Bazzo

Fonte original

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