Críticas e Colunas
Um mergulho em (Um) Ensaio sobre a Cegueira - Só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são.
Por Maduh Cavalli(Um) Ensaio sobre a Cegueira, do Grupo Galpão, inspirada na obra de José Saramago, a montagem desloca o foco da narrativa para a experiência. A conhecida epidemia de cegueira branca funciona menos como motor de trama e mais como dispositivo simbólico: não se trat
Atualizado em 27 de agosto de 2026


Foto: Maringas Maciel
Por Maduh Cavalli
(Um) Ensaio sobre a Cegueira, do Grupo Galpão, inspirada na obra de José Saramago, a montagem desloca o foco da narrativa para a experiência. A conhecida epidemia de cegueira branca funciona menos como motor de trama e mais como dispositivo simbólico: não se trata de uma cegueira física, mas de uma metáfora da falência ética, da razão, do senso de coletividade, da capacidade de enxergar o outro. O espetáculo, então, não quer apenas contar essa história, mas fazer o público atravessá-la.
A encenação se constrói a partir de camadas sensoriais e imagéticas que convocam o espectador a um estado ativo. Há uma aposta clara no imaginativo: o que não se vê é tão, ou mais, importante do que aquilo que está exposto. Nesse sentido, a peça opera numa lógica de deslocamento da centralidade do olhar, instaurando outras formas de percepção. Há algo de profundamente poderoso quando o teatro rompe a barreira do olhar e se instala em outros sentidos. Quando ele deixa de ser contemplação e vira experiência.
Essa proposta se intensifica quando parte do público é convidado a entrar em cena. A experiência, longe de ser um recurso meramente interativo, revela-se um gesto político. Estar ali é, ao mesmo tempo, perder o controle e perceber-se dentro de uma engrenagem maior. Paradoxalmente, é também nesse estado de “não ver” que se amplia a compreensão do todo. Mesmo sem enxergar grande parte do que acontecia, eu compreendi, talvez mais do que se estivesse vendo. Porque o entendimento veio pelo corpo. No fim, as lágrimas vieram sem aviso.
Os personagens, ao longo da narrativa, ganham contornos cada vez mais viscerais. Não há idealizações: o que emerge é o humano em sua dimensão mais crua, violento, egoísta, mas também, por vezes, solidário. Essa ambivalência sustenta a tensão dramatúrgica e impede qualquer leitura simplista. A peça não oferece respostas fáceis; ao contrário, insiste em expor contradições.
A direção de Rodrigo Portella se destaca pela precisão com que articula esses elementos. Há uma condução firme, mas sensível, que organiza o caos sem domesticá-lo. A encenação mantém um equilíbrio delicado entre rigor formal e abertura para o imprevisível, algo essencial quando se trabalha com a presença ativa do público.
Outro momento de grande impacto é a saída para a rua ao final do espetáculo. Depois de um mergulho tão denso, o retorno ao espaço urbano funciona como um respiro, um reaterramento. Mas não há alívio completo: o que foi vivido permanece reverberando. A cidade, agora, é atravessada por outra camada de sentido.
Assistir a (Um) Ensaio sobre a Cegueira é confrontar-se com uma pergunta incômoda: o que, de fato, temos escolhido não ver? Ao tensionar as relações entre indivíduo e coletivo, ética e sobrevivência, a peça reafirma a potência do teatro como espaço de reflexão e experiência. Saí me perguntando o que eu escolho não ver todos os dias.
O Grupo Galpão, que já era para mim um lugar de amor e admiração, se reafirma como aquilo que eu acredito enquanto teatro.
Isso é teatro vivo.
Que expõe.
Que dialoga.
Que convoca.
Que pertence.
Teatro que acontece, na cena, no corpo, e muito depois do fim.
_______*
Sinopse
Uma epidemia de cegueira assola a cidade, privando seus habitantes de enxergar o mundo como antes. Tudo começa com um homem no trânsito, repentinamente cego. Rapidamente a condição se espalha e coloca à prova a moral, a ética e as noções de coletivo. Um encontro entre o Grupo Galpão e a obra de José Saramago, escritor português ganhador do Prêmio Nobel de Literatura.
Ficha Técnica
Elenco: Antonio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Luiz Rocha, Lydia Del Picchia, Paulo André e Simone Ordones; Direção e Dramaturgia: Rodrigo Portella; Diretores Assistentes: Georgina Vila Bruch e Paulo André; Direção Musical, Trilha Original e Paisagem Sonora: Federico Puppi; Cenografia: Marcelo Alvarenga (Play Arquitetura); Figurino: Gilma Oliveira; Interlocução Dramatúrgica: Bianca Ramoneda; Iluminação: Rodrigo Marçal e Rodrigo Portella; Adereços: Rai Bento; Visagismo: Gabriela Dominguez; Desenho Sonoro, Programação e Mixagem: Fábio Santos; Assistência de Direção: Zezinho Mancini; Assistência de Figurino: Caroline Manso; Assistência de Cenografia: Vinícius Bicalho; Construção Cenário: Artes Cênica Produções; Costuras: Danny Maia; Fotos: Igor Cerqueira e Mateus Lustosa; Registro e Cobertura Audiovisual: Luiz Felipe Fernandes; Comunicação: Letícia Leiva e Fernanda Lara; Projeto Gráfico: Filipe Lampejo e Rita Davis; Consultoria de Acessibilidade: Oscar Capucho; Operação de Luz: Rodrigo Marçal; Operação de Som: Fábio Santos; Técnico de Palco: William Bililiu; Assistente Técnico: William Teles; Assistente de Produção: Zazá Cypriano; Produção Executiva: Beatriz Radicchi; Direção de Produção: Gilma Oliveira; Produção: Grupo Galpão.
Leia também

Críticas e Colunas
A mistura de cores num pacote de balas de goma - por Gabi Coutinho
Esses dias fui numa distribuidora de doces e escolhi um pacotinho de balas de goma daqueles que parecem ter mais da vermelha, que quase unanimemente é a favorita. Uma admiração que não é de hoje, mas que cada vez mais surpreende, sabe?E não que eu não goste das outras cores mas,
No Teatro Curitiba26 de agosto de 2026 5 min de leitura

Críticas e Colunas
Como foi que eu vim parar aqui? - uma reflexão de muitas perspectivas sobre o processo de Lucrécia, da Trupe Ave Lola
Por Gabi CoutinhoComo foi que eu vim parar aqui?Me pergunto mas não busco uma resposta pois tenho medo que visto de fora pareçadelirante demais. Um devaneio que ao invés de trazer explicações plausíveis para o lugaronde me encontro soa como loucura quando visto de fora.Ouço uma m
No Teatro Curitiba22 de agosto de 2026 3 min de leitura

Críticas e Colunas
Por trás de narizes vermelhos - por Gabi Coutinho
Durante muito tempo, palhaços foram criaturas que eu preferia manter distância. Não sei se por medo deles, ou por medo do que eles pareciam esconder. Havia algo desconcertante naquele sorriso pintado. Uma maquiagem que apagava o rosto de alguém para inventar outro. Eu olhava e pe
No Teatro Curitiba04 de agosto de 2026 4 min de leitura