Críticas e Colunas
UM MOSAICO DO EU - Crítica do espetáculo A Língua do Fogo
Crítica do espetáculo A Língua do Fogo, de Vinícius de Souza (MG), visto no dia 15 de maiode 2026, na Caixa Cultural de Curitiba, durante a programação da Plataforma Súbita -Encontro Internacional de Investigações Cênicas.Por Heloísa Sousa (RN/PE)Uma das características mais marc
Atualizado em 27 de agosto de 2026

Crítica do espetáculoA Língua do Fogo**, de Vinícius de Souza (MG), visto no dia 15 de maio**
de 2026, na Caixa Cultural de Curitiba, durante a programação da Plataforma Súbita -
Encontro Internacional de Investigações Cênicas.
Por Heloísa Sousa (RN/PE)
Uma das características mais marcantes do “giro performativo” (Fischer-Lichte, 2011) percebido
nas artes da cena a partir da segunda metade do século XX, é justamente o reposicionamento do eu
como matéria de composição, seja através das narrativas autobiográficas, das enunciações a partir
da experiência de vida coletiva e marginalizada, das provocações em torno das noções de realidade
e performatividade. Longe de ser uma proposição absolutamente inaugural do século XX, é notável
que os Teatros do Real trazem aos acontecimentos cênicos uma lida mais radical com o si mesmo,
com as trajetórias vividas e com os documentos históricos. Na tentativa de escapar das narrativas
hegemônicas e excludentes, observar as ruínas da história como sugeriu Walter Benjamin e
compreender a trama política, cultural e psicológica que compõem a nossa subjetividade,
começamos a acompanhar uma efervescência ímpar de teatros autobiográficos, autoficcionais e
documentais.
Nenhum movimento artístico e histórico propõe seu curso sem que seja notável alguns efeitos
colaterais. Se essa guinada fomentou discussões cruciais sobre ficção, história e realidade nas artes
da cena, além de desorganizar as presenças masculinas, cisgêneras, brancas, heterossexuais
reincidentes, com posicionamentos muitas vezes excludentes e desgastantes, essa mesma guinada
não conseguiu escapar de também ser cooptada para constituir como uma estética neoliberal,
promovendo uma exacerbação do individualismo, uma dissolução das mediações e um protagonismo de rostos representativos que recuam nas discussões iniciais fomentadas pelos estudos culturais, pelos estudos de gêneros e raciais, pela psicanálise e filosofias da diferença que defendiam a multiplicidade, a diversidade e as mutações contínuas como basilares no reconhecimento e na lida com a “realidade”.
Possivelmente, um dos nomes mais emblemáticos neste assunto na cena contemporânea brasileira
seja o da artista-pesquisadora Janaína Leite com sua série de obras teatrais, aliada às suas pesquisas
consistentes sobre as “autoescrituras performativas”, onde as contradições e abjeções em torno do
gênero feminino - da sacralidade ao erotismo - emergem como dramaturgias desenhadas a partir de
uma reorganização estética de suas próprias vivências. Alguns bons anos depois, muita pulverização e saturação em torno dessas formas teatrais, o dramaturgo e ator mineiro Vinícius de Souza estreia a peça “A Língua do Fogo”, dirigida por João Marcelo Emediato e Paulo André, parte de uma trilogia em construção que traz em cena fragmentos da história pessoal do próprio autor, com figuras e
vivências do interior de Minas Gerais. Não deixa de soar irônico e cansativo que no início de alguma crise das narrativas autobiográficas no teatro, estejamos diante da estreia de uma obra que poderia se posicionar nesse território mas criada por homens brancos e cisgêneros, ainda que haja dissidências explícitas nesses mesmos corpos com relação à orientação sexual. No entanto, ainteligência e sagacidade de “A Língua do Fogo” se dá não em tentar narrar alguma história, mas na forma como a dramaturgia e a encenação escancaram essa impossibilidade, na instabilidade e na fragmentação do eu - mostrando que, talvez, o estilhaçamento seja um dos procedimentos mais pertinentes na lida do sujeito como documento.
Arraigado numa estrutura profundamente teatral (contramão do performativo, tornado estereótipo?)
enquanto reconhecimento de figuras-personagens, deslocamentos de imagens e situações representativas, oníricas ou ficcionais, Vinícius de Souza apresenta a si mesmo como uma figura ciente de seu próprio futuro, expondo teorias sobre a possível existência de um duplo e a relação disso com os sonhos noturnos. O que parece que irá se estruturar em uma relação dual e em uma alternância entre Vinícius e seu duplo, se multiplica vertiginosamente na aparição de outras figuras -
um colega de infância, a mãe, o pai, os irmãos, um chefe, um tio - que gradativamente reconhecemos como pessoas do convívio da figura central - são essas pessoas que compõe o euinicial que em momento algum diz, de fato, de si.
Enquanto se questiona sobre como se compõe o eu, essa coisa que nomeamos identidade, a encenação vai estruturando essa figura central a partir de pedaços de outros eus. Como em um mosaico, as partes vão configurando alguma figura inteira, embora incapturável, com rejuntes visíveis. O que há de diferente aqui, é o fato da dramaturgia apresentar figuras conscientes de suas condições de memórias fragmentadas e editadas. Quando o ator atua a própria mãe e enquanto sustenta a partitura corporal e vocal desta personagem consegue enunciar suas próprias falhas - a mãe ali segura um cigarro que ela mesma ironiza por saber da falta de correspondência daquela imagem com o “real”. Mas, isso porque o “real” que se apresenta aqui é aquele estruturado
emocionalmente e corporalmente pelo próprio ator, e ainda por isso se afirma tão real quanto a outra
dita realidade. O reconhecimento dessa trama traz à dramaturgia uma abordagem profundamente psicanalítica - é uma cena que se sabe, se pensa e se elabora. Esse jogo contínuo entre as personagens como duplos-outros, em diálogos através de si mesmo opera um estilhaçamento fundamental na obra.
Para além do reconhecimento da estrutura fragmentada - recurso tão comum nas obras ditas
contemporâneas desde as operações artísticas manifestadas pelas vanguardas, em “A Língua do
Fogo”, a fragmentação é encenada de um modo específico. O que vemos de início é a unidade que
sugere um monólogo simplista - um ator em cena, uma cadeira, uma garrafa ao lado, camisa de
botão e calça, nada mais além de uma imagem curiosa e em preto e branco de uma arcada dentária pendurada como em uma galeria ao fundo do palco. O que parece que se restringiria nessa
centralidade começa a se multiplicar. Os dentes caem e se espalham pelo chão, o duplo torna-se triplo-quádruplo-quíntuplo, o figurino se transmuta em diferentes amarrações e abotoamentos para cada personagem que aparece em cena, as mudanças de luz transmutam ângulos e imagens, o
espaço vai se abrindo com uma boca escancarada. E de repente, a unidade se estilhaçae coloca o espectador em desorientação.
A autoescritura aqui é profundamente teatral, tanto que esse fato é nomeado repetidas vezes com
“isso é teatro”, mas menos como estratégia épica para conscientização da convenção teatral, e mais
para aproximar a vida da lógica teatral em si. Essa aproximação torna visível a trama de contradições que sustenta a vida e o modo como a narramos, representamos, lembramos e seguimos compondo a partir disso. Mas, a contradição em “A Língua do Fogo” não é assunto, mas matéria de encenação - poucos objetos cenográficos para muitas imagens, um ator para muitas personagens, inúmeras palavras para poucas conclusões. Aqui opera-se a ética da obra artística que se ocupa de manter a complexidade das coisas e nos convocar a enfrentar e sustentar essa dimensão.
Por fim, nessa operação do estilhaçamento seria incoerente se a própria encenação buscasse remendar ou reunir os fragmentos a fim de apresentar algum final conclusivo que estruturasse alguma epopeia e validasse aquela quase narrativa - o que seria inviável diante de tanto comumnarrado ali. Nesse sentido, a obra nos lembra como a cena final numa encenação carrega tanta dificuldade de se elaborar justamente por não ser uma conclusão, mas sim - talvez - um corte (lacaniano). Assim como o suicídio que interrompe conscientemente um fluxo, a cena final de uma peça deveria cortar no ponto exato em que a obra possa trazer ao espectador o ápice da sensação de abertura para dali seguir com ela e é isso que acontece em “A Língua do Fogo”.
É a aproximação entre a escrita dramatúrgica e a fala/teoria psicanalítica - que já vem sendo notada
também por outros artistas da cena - que oferece ao teatro a possibilidade de encenar o eu como uma montagem de memórias, equívocos e rupturas, reconhecendo e assumindo a própria falha (e seu saudosismo) como constituinte desse real. A escrita dramatúrgica autobiográfica só poderia, talvez, se dar enquanto não se afirmar como verdade ou como trajeto excepcional, mas sim enquanto uma virtualidade, enquanto sintoma ou enquanto movimento poético e consciente dos próprios vacilos - estes cheios de gozo e sentidos em si.
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Crítica Convidada

Heloísa Sousa é artista-pesquisadora potiguar. Licenciada em Teatro pela UFRN, mestre em Artes Cênicas pela mesma instituição e doutora em Artes pela USP, desenvolvendo pesquisas no campo das visualidades cênicas. Atua principalmente como encenadora e como crítica de teatro, sendo uma das editoras e fundadora do site Farofa Crítica desde 2016. Também é professora no Centro de Artes e Comunicação da UFPE.
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Sinopse
Durante uma aula, um professor esquece o próprio nome. Para recuperá-lo, mergulha em lembranças fragmentadas de sua origem, revivendo cenas e personagens da cidade industrial onde nasceu. A língua do fogo é um monólogo autoficcional de Vinícius de Souza, na qual o ator interpreta múltiplas vozes e figuras, numa performance polifônica e labiríntica. A trama percorre as zonas instáveis da memória, do sonho e da busca por identidade, enquanto revela antigos fantasmas da América Latina como o colonialismo e a violência estrutural. Entre o cômico e o trágico, o estranho e o familiar, o individual e o coletivo, o espetáculo se pergunta: como se constrói — e como se desfaz — a identidade de uma pessoa?

Ficha Técnica
Texto e atuação: Vinícius de Souza
Direção: Paulo André e João Emediato
Trilha sonora original: Davi Fonseca
Direção de arte: Luiz Dias
Direção corporal: Rafael Batista
Iluminação: Felipe Tristão
Operação de som: Álvaro Antonio
Assistência de direção de arte: Carol Manso
Realização: Planos Incríveis
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