Críticas e Colunas
Violência à brasileira: crítica da peça “Reparação”, por Adelaide
Por Adelaide, escrito por Maria Nardy (crítica convidada para cobertura do Festival de Curitiba)Um salão de beleza, final dos anos 80, em uma cidade do interior. Manicure, cabeleireira, santa embaixo da mesa, São Jorge no altar na quina da parede, adesivo do Collor no vidro da ja
Atualizado em 27 de agosto de 2026

Por Adelaide, escrito por Maria Nardy (crítica convidada para cobertura do Festival de Curitiba)
Um salão de beleza, final dos anos 80, em uma cidade do interior. Manicure, cabeleireira, santa embaixo da mesa, São Jorge no altar na quina da parede, adesivo do Collor no vidro da janela.
Um cenário familiarmente brasileiro, detalhado cuidadosamente, regado a café, cigarro, vizinhança e fofoca.
Reparação, peça com encenação e dramaturgia de Carlos Canhameiro, começa e termina com ela: a fofoca brasileira, as más línguas, a vizinhança especulando as diferentes narrativas de uma violência.
Há aqueles que acreditam na crueldade dos dois meninos que seguraram uma menina à força para fazer aquilo que a misoginia sabe fazer. E há sempre alguém para dizer: “ela queria”.
A fofoca no salão de beleza vira o fio condutor que desvela a história, baseada em um caso real, a peça alterna ora os personagens centrais do enredo, ora os comentários que criam um entorno quase mítico.

Foto: Mariana Chama
Uma menina de 16 anos grávida numa cidade pequena, que volta anos depois para oferecer ao “pai” abusador algo que ela pudesse tirar depois: o filho gerado dessa violência, morto agora pela mãe.
Uma Medeia à brasileira, servida à mesa da família tradicional. O assassinato como reparação a uma morte em vida, mas será possível reparar a violência acontecida? Há remediação para a crueldade?
A encenação nos traz duas figuras interessantes ao palco: duas profissionais da beleza não atrizes, mas que, uma vez em cena, atuando estão. As duas são um brilho subutilizado que fica num lugar de mise-en-scène cenográfica, mas o carisma da manicure Maria França conquista.
Já a projeção usada para ilustrar cenários e legendar quem eram as vozes dos vizinhos me parece poluir a peça com códigos que o próprio teatro e atores já dariam conta.
Durante todos os depoimentos dos vizinhos, por vezes repetitivos, a sonoplastia feita no teclado ao centro do palco torna-se uma camada que preenche constantemente a cena, nos roubando o silêncio necessário para reverberação. Precisamos sentir o peso para dimensioná-lo.
As músicas escolhidas com temática de amor, dancinhas e cantorias, mesmo que em ironia, traziam uma descontração um tanto Hairspray que me fazem questionar se esse é o caminho para seguir.
Sendo uma mulher, não quis acompanhar por aí e não sorri.
Há uma cena que gostaria de falar em especial: uma sobreposição de atriz e seu vídeo projetado ao fundo, atriz e sua gravação juntas, propondo um exercício eficiente e simples: quantos filmes mostram em close e câmera lenta a agonia de um homem hétero ao ser violentado sexualmente em um beco escuro? Quantas cenas de violência contra homens héteros são narradas e mostradas com vigor, com fetiche? Faça as contas. A matemática aqui é simples e clara: quanta realidade você é capaz de mostrar? E qual realidade é capaz de assistir?
Assistimos, em alarido, há séculos, à novela da violência contra a mulher, servida à mesa, com manutenção semanal em uma tranquila cadeira de salão, entre um passar e outro da página da revista.
A fofoca vem como alimento da violência e desenha quem é vilão e quem é vítima, o pai abusador ou a mãe assassina. Quem matou quem? Quem fará questão de ajudar a enterrar suas vítimas?
Para mim, Adelaide, reparação não há, mas o teatro pode tentar.
______*
Adelaide, a crítica, é um heterônimo criado por Maria Clara Nardy, mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Mais do que uma assinatura, Adelaide é um jogo de alteridade: um desdobramento sensível que pensa a crítica como relação e escuta e se propõe como uma defesa do teatro.
______*
Ficha Técnica de Reparação
Encenação e Dramaturgia: Carlos Canhameiro
Elenco: Daniel Gonzalez, Fábia Mirassos, Luiz Bertazzo, Marilene Grama, Nilcéia Vicente e Yantó
**Manicure em Cena:**Maria França
**Cabelo e Maquiagem em Cena:**Rosa De Carlos
Trilha Sonora e Música ao Vivo: Yantó
Cenário: José Valdir Albuquerque e Carlos Canhameiro
Iluminação: Gabriele Souza
Assistente de Iluminação: Diego França
**Figurinos:**Bianca Scorza (acervo Godê)
Videografia: Vic von Poser
Técnico de Som: Pedro Canales
Técnico de Luz: Finnick Fernandes
**Produção:**Mariana Pessoa
**Apoio:**Cine Dom José, FJ Cine - Giscard Luccas e Jasmim Produção Cultural
Livro: Editora Javali
Piano: Be my Husband, Daniel Muller
Projeto contemplado pela 19ª Edição do Prêmio Zé Renato — Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa.
Serviço:
Reparação - Mostra Lucia Camargo
34º Festival de Curitiba
Data: 31 de março e 1 de abril, às 20h30
Local: Teatro Sesc da Esquina - Rua Visconde do Rio Branco, 969, Centro
Classificação: 16 anos
Duração: 105 min
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